Guia completo para cuidar de plantas dentro de casas e apartamentos

Sergio Oyama Junior

Orquídea Cattleya


Orquídea Cattleya labiata caerulea
Cattleya labiata caerulea

As orquídeas do gênero Cattleya, proposto por John Lindley em 1821, em homenagem ao orquidófilo William Cattley, estão entre as preferidas dos colecionadores. Provavelmente, são as primeiras a virem à nossa mente quando pensamos em orquídeas. Apresentando uma multitude de formas, cores e perfumes, as mais de 100 espécies de Cattleya e seus híbridos naturais ocorrem tipicamente por todo o continente latino-americano, com uma importante presença no território brasileiro.

Embora a primeira orquídea tenha sido descrita por Teofrasto, discípulo de Aristóteles e considerado o pai da botânica, 300 anos antes de Cristo, foi somente no século XIX que o interesse e a procura pelos membros desta vasta família botânica se intensificou.



Inicialmente, as orquídeas, em sua maioria do gênero Cattleya, foram coletadas por pesquisadores ingleses, em território brasileiro, juntamente com várias outras plantas, para estudo. Alguns exemplares eram tão abundantes que foram utilizados como forração nos caixotes de madeira repletos de plantas, despachados para a Europa. Foi somente em 1818 que William Cattley, cultivando diversas plantas tropicais em suas estufas, presenciou a primeira floração de uma orquídea brasileira em território inglês. Tratava-se de uma belíssima Cattleya labiata púrpura, com um perfume marcante e único.

Após a descrição e classificação desta Cattleya por John Lindley, inúmeras outras espécies de orquídeas, do Brasil e do mundo, começaram a ser descobertas. Embora o avanço da ciência e do conhecimento acerca da flora tenha sido imenso, iniciou-se nesta época a coleta desenfreada das orquídeas em seus habitats, prática que levou muitas espécies à extinção. Infelizmente, devido à sua beleza, a orquídea Cattleya foi uma das mais afetadas. É o caso da Cattleya schilleriana, que desapareceu do seu local de origem, no Espírito Santo. Felizmente, muitos exemplares encontram-se preservados em coleções públicas e particulares no mundo todo. O mesmo ocorreu com a Cattleya velutina, extinta na natureza. Mesmo entre os colecionadores, esta espécie ainda é bastante rara.


Atualmente, a coleta de orquídeas da natureza somente é permitida em casos muito específicos, para estudo e pesquisa. A comercialização de plantas nativas é proibida por lei. Ainda assim, tanto a coleta como a venda de orquídeas retiradas da natureza são práticas muito comuns, nos dias de hoje. Não se tem um controle para diferenciar o que é coletado e o que é produzido em estufas, a partir de sementes germinadas em laboratório. Neste contexto, infelizmente, as orquídeas Cattleya estão entre as mais cobiçadas e continuam a ser intensamente caçadas Brasil afora.

A Cattleya labiata, conhecida como a rainha do nordeste ou do sertão, possui uma legião de fãs e cultivadores, principalmente entre a velha guarda de orquidófilos. Existem critérios rígidos para classificar as diferentes tonalidades de cores existentes, que vão do branco puro, forma alba, ao púrpura intenso, variedade chamada de rubra. No meio do caminho, temos a forma semi-alba, caerulea, concolor, entre outras. Atualmente, o cultivo da Cattleya labiata não está tão em voga, apesar de haver colecionadores mais antigos especializados nesta orquídea.

Orquídea Cattleya labiata
Cattleya labiata

Da mesma forma, existem os partidários da Cattleya walkeriana, orquídea que pode atingir valores estratosféricos devido à sua raridade, beleza e perfeição. Esta é a espécie do momento, sendo bastante cobiçada pelos colecionadores. Existem associações específicas para troca de informações a respeito da Cattleya walkeriana, bem como exposições temáticas e leilões exclusivos.

Descoberta duas décadas depois da Cattleya labiata, a espécie walkeriana homenageia o assistente inglês Edward Walker, que trabalhava com o médico britânico George Gardner, responsável por encontrar a Cattleya walkeriana em Minas Gerais, em 1839. Por esta razão, um dos sinônimos da espécie é Cattleya gardneriana.

Ao contrário da Cattleya labiata, que se concentra nos estados do nordeste brasileiro, a Cattleya walkeriana possui uma dispersão mais ao sudeste e centro-oeste, partindo de Minas Gerais e atingindo São Paulo, Goiás e Mato Grosso.

Orquídea Cattleya walkeriana 'Feticeira'
Cattleya walkeriana 'Feticeira'

Outra orquídea Cattleya que já tive o privilégio de cultivar aqui no apartamento é a Cattleya bicolor. Esta é uma espécie de colorido único, assim nomeada graças ao intenso contraste entre o labelo magenta e as pétalas e sépalas em diferentes tonalidades que variam do verde acobreado ao castanho. Embora não atinja as cifras estratosféricas no mercado orquidófilo, como ocorre com as orquídeas Cattleya apresentadas anteriormente, esta espécie possui um lugar de destaque na minha coleção, sendo uma das minhas preferidas. Particularmente, gosto bastante deste meu exemplar porque suas pétalas e sépalas são lisas, sem o pintalgado que costuma ocorrer nesta espécie. Além disso, o contraste do tom verde acobreado com o magenta do labelo é algo surreal.

Orquídea Cattleya bicolor
Cattleya bicolor

Na época de seu descobrimento, as orquídeas Cattleya, bem como todas em geral, eram classificadas e nomeadas de acordo com suas características morfológicas, suas semelhanças, além de distribuição geográfica e época de floração. Hoje em dia, exames mais complexos, do genoma destas plantas, auxiliam no trabalho de taxonomia.

Como resultado deste processo, muitas orquídeas vêm sendo trocadas de gênero. A confusão é generalizada, ninguém se entende. Não existe um consenso, por parte dos pesquisadores, sobre a qual gênero cada orquídea pertence. Apenas para citar um exemplo, temos o caso da Sophronitis cernua, que foi assim nomeada há séculos, juntamente com a Sophronitis coccinea e Sophronitis wittigiana, e que somente agora resolveram transformá-la em Cattleya. Uma decisão que muitos orquidófilos não engoliram até hoje.



O fato é que as orquídeas da chamada aliança Cattleya, que engloba Brassavola, Laelia e Sophronitis, são muito próximas entre si, geneticamente falando. A proximidade é tamanha que várias espécies destes diferentes gêneros podem ser cruzadas entre si, gerando descendentes férteis. Portanto, existe uma imensa gama de híbridos intergenéricos descendentes de orquídeas Cattleya e suas aparentadas.

O híbrido Sophrolaeliocattleya Tutankamen 'Pop', por exemplo, é resultante do cruzamento entre Sophronitis, Laelia e Cattleya. A Brassolaeliocattleya, por sua vez, é descendente de orquídeas dos gêneros Brassavola, Laelia e Cattleya. Já o híbrido que contempla os quatro gêneros juntos, Brassavola, Sophronitis, Laelia e Cattleya, é denominado Potinara. Um belíssimo exemplo desta mistura, que produz flores amarelas com detalhes em vermelho, é a Potinara Burana Beauty 'Burana'.

Orquídea Brassolaeliocattleya híbrida
Brassolaeliocattleya híbrida

Um capítulo à parte são as charmosas mini Cattleyas, carinhosamente apelidadas de mini-catts. Ao contrário do imenso híbrido repolhudo da foto acima, as miniaturas de Cattleya são híbridos desenvolvidos a partir de espécies de pequeno porte, como Cattleya luteola, Laelia alaorii e Sophronitis coccinea. Estas orquídeas visam um público consumidor que dispõe de pequenos espaços, como os cultivadores em apartamento. De modo geral, as mini Cattleyas são plantas de pequeno porte, que exibem flores comparativamente grandes em relação à parte vegetativa. Além disso, costumam florescer mais de uma vez por ano, graças à sua natureza híbrida, além de requererem menos luminosidade para florescerem. Um belo exemplo desta classe de orquídeas é a Sophrocattleya Beaufort, resultante do cruzamento entre a Cattleya luteola e a Sophronitis coccinea. Outra bela mini Cattleya é a Sophrocattleya Batemaniana, descendente da Cattleya intermedia e Sophronitis coccinea.

Orquídea Sophrocattleya Batemaniana
Sophrocattleya Batemaniana

O cultivo das orquídeas do gênero Cattleya possui suas peculiaridades. É de fundamental importância que tanto a espécie como o híbrido que possuímos em mãos sejam corretamente identificados. Somente sabendo a genealogia da orquídea que estamos cultivando, poderemos fornecer as condições climáticas corretas para o bom desenvolvimento e florescimento da planta em questão.

Estes parâmetros de partida são essenciais porque as diferentes espécies de Cattleya e seus inúmeros híbridos possuem exigências de cultivo diferentes. Mas de modo geral, estas são orquídeas que apreciam elevados índices de luminosidade. É importante que a luz solar não incida diretamente sobre as folhas, o ideal é que o sol seja filtrado por uma tela de sombreamento, geralmente que barre 50% da luminosidade. Por causa desta exigência de bastante luz, muitas orquídeas Cattleya, como walkeriana e nobilior, por exemplo, dificilmente florescerão dentro de casas e apartamentos.


As orquídeas Cattleya são epífitas por natureza. Isso significa que suas raízes são adaptadas para crescerem aderidas aos troncos das árvores. Eventualmente, algumas espécies podem ser encontradas vegetando sobre rochas, apresentando assim um hábito rupícola. No entanto, o mais comum é que os representantes do gênero Laelia, como a Laelia lucasiana, apresentem este padrão de crescimento sobre pedras.



No cultivo doméstico, para tentar simular este hábito epífito, os cultivadores costumam manter suas orquídeas Cattleya em pedaços de madeira ou troncos cortados. Nesta situação, as raízes crescem livres de qualquer material que possa reter umidade em torno delas. No entanto, trata-se de um cultivo mais trabalhoso, já que a umidade relativa do ar deve ser elevada e as regas frequentes. Nos dias muito quentes, pode ser necessário regar duas vezes ao dia.

Para facilitar, muitos recorrem aos vasos, que podem ser de barro ou de plástico. Existem vasos de barro específicos para o cultivo de orquídeas. Eles são mais baixos e largos, com furos nas laterais. Estas modificações são importantes por permitirem uma boa aeração para as raízes. Desta maneira, o substrato seca mais rapidamente, entre uma rega e outra.

Para quem cultiva orquídeas em apartamentos e possui uma grande coleção, no entanto, os vasos de plástico podem ser mais interessantes. Eles pesam menos e podem ser pendurados com mais facilidade. Além disso, o material permite um desenvase mais tranquilo. O problema é que este material retém a umidade do substrato por um período mais longo. Desta forma, a frequência das regas deve ser ajustada de acordo.

Um inimigo mortal das orquídeas Cattleya é o excesso de umidade em torno das raízes. Portanto, qualquer que seja o material do vaso, convém evitar o uso de pratinhos embaixo, que acumulam água e favorecem o apodrecimento das raízes. Bandejas umidificadoras, contendo uma camada de brita, pedrisco ou argila expandida no fundo, e uma lâmina de água, podem servir para elevar os níveis de umidade em torno do vaso, sem que a água entre em contato direto com as raízes.


A cada temporada, um substrato acaba sendo eleito como o queridinho dos orquidófilos. Existem aqueles que cultivam suas orquídeas Cattleya em brita pura. Outros juram que o carvão vegetal funciona como excelente substrato. Há quem prefira casca de macadâmia. Antigamente, a moda era usar musgo sphagnum puro. Há ainda os adeptos da semi-hidroponia. São tendências que vêm e vão, ao sabor dos modismos.



Para quem não quer arriscar ou está iniciando, existem substratos próprios para o cultivo de orquídeas epífitas à venda nas lojas especializadas. Geralmente, são compostos por casca de pinus, carvão vegetal e fibra de coco. Estes materiais permitem uma boa aeração para as raízes, são bem drenáveis e secam rapidamente. O que vai, de fato, nutrir as orquídeas são os minerais provenientes da adubação. O substrato serve apenas como um suporte para a fixação das raízes, além de ajudar a reter a umidade por mais tempo.

A adubação é outro campo fértil para modismos e controvérsias. Cada cultivador elege seu esquema de fertilização preferido, que pode ser químico, orgânico ou organomineral. Diferentes combinações podem ser feitas, de modo que a coisa pode ficar complexa a ponto de exigir tabelas semanais de aplicações dos mais diferentes produtos.

O importante é que as orquídeas Cattleya, e todas as demais, necessitam basicamente de nitrogênio, fósforo e potássio para um bom desenvolvimento. Por esta razão, os fertilizantes são conhecidos como NPK. Existem formulações próprias para os diferentes estágios de desenvolvimento das orquídeas, disponíveis no mercado. O importante é que as fórmulas contenham macro e micronutrientes, essenciais ao crescimento, manutenção e floração das orquídeas. Eu costumo utilizar adubos químicos, do tipo NPK, semanalmente. Alterno fórmulas de manutenção e floração e costumo utilizar metade da dose recomendada pelo fabricante. Não me atenho a marcas específicas, presto mais atenção à composição química e à facilidade de encontrar o produto nas lojas que costumo frequentar.


Eu apenas costumo evitar adubos orgânicos. Existem diferentes formulações, que misturam torta de mamona, esterco curtido, farinha de osso, bokashi, etc. O princípio básico para que estes fertilizantes funcionem é que fungos e bactérias decomponham o material, para somente então liberar os elementos químicos que serão absorvidos pelas raízes das orquídeas. Como cultivo dentro de apartamento, este processo acaba incomodando, já que exala odores desagradáveis e atrai insetos.

Já tentei cultivar de tudo aqui no apartamento, mas foram as orquídeas do gênero Cattleya as que melhor se adaptaram às condições precárias deste ambiente artificial. Esta resistência deve-se às suas folhas rígidas e seus caules modificados, os chamados pseudobulbos, estruturas adaptadas ao armazenamento de água e nutrientes. Como minha varanda é face oeste, recebe todo o sol da tarde, o que acaba sendo benéfico para este gênero de orquídea.

Sou suspeito para opinar, já que tenho uma queda por orquídeas Cattleya, sejam elas espécies ou híbridos. Mas apesar de algumas exigências, são plantas que considero resistentes, de fácil cultivo e de generosas florações. Vale a pena colecioná-las, nunca uma é igual à outra.