Guia Completo para Cuidar de Plantas dentro de Casas e Apartamentos

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Sergio Oyama Junior


Orquídeas no Apê
Orquídeas no Apê

Como Cuidar de Cactos


Cacto Opuntia monacantha
| Opuntia monacantha |

Faz parte do imaginário popular a crença de que é muito fácil cuidar de cactos. Tanto que, quando desejamos ilustrar nossa inaptidão em relação ao cultivo de plantas, de uma maneira geral, costumamos dizer que somos capazes de matar, até mesmo, os cactos. O fato é que esta curiosa família botânica é muito mais geniosa, diversificada e desafiadora do que o senso comum pode supor.

O primeiro desafio consiste na correta identificação dos cactos. Embora todas as cactáceas sejam plantas suculentas, nem todas as suculentas são consideradas cactos. Do ponto de vista técnico, é necessário que, além da capacidade de armazenar água em seus tecidos vegetais, a planta pertença à família botânica Cactaceae, para que seja considerada um cacto propriamente dito.


Outro complicador, que costuma confundir o iniciante no cultivo de cactos, é a infinita variedade de apelidos e nomes populares atribuídos às plantas ornamentais, que incluem o termo cacto, sem que necessariamente estes vegetais pertençam à família Cactaceae.

O famoso cacto pedra, por exemplo, pertence à família botânica Alzoaceae, sendo os representantes do gênero Lithops os mais conhecidos. Já o cacto candelabro, por sua vez, pertence à família Euphorbiaceae, sendo outro exemplo de planta suculenta que recebe o apelido de cacto indevidamente. Também temos o cacto estrela, nome popular atribuído a um representante da família Apocynaceae.

A esta dificuldade inicial soma-se o fato de que nem todas as cactáceas apresentam aquela aparência estereotipada dos desenhos animados, constituída por cilindros eretos, ramificados e repletos de espinhos agressivos. Além disso, nem todas as espécies e gêneros são originárias de ambientes quentes e secos, o que torna a tarefa de cuidar de cactos um pouco mais complexa.


Embora não sejam muito conhecidas do público em geral, existem cactáceas adaptadas à vida em ambientes de florestas, onde a luz é mais difusa. Geralmente, estes cactos de sombra possuem um hábito epífito, emitindo raízes aéreas que ficam aderidas aos troncos das árvores. A luminosidade que recebem é filtrada pelas copas destes hospedeiros, que servem apenas como apoio físico para esta categoria de cactos.

Outra curiosidade interessante é que estes cactos epífitos apresentam um porte pendente, raramente desenvolvendo espinhos agressivos. Um exemplo clássico de cacto pendente de sombra é a espécie Rhipsalis baccifera, popularmente conhecida como cacto macarrão.

Cacto Rhipsalis baccifera
Rhipsalis baccifera

Ainda neste grupo de cactos, encontra-se a espécie Selenicereus anthonyanus, cujo apelido mais famoso é cacto sianinha, devido ao formato em zig zag de seus caules suculentos.

Cacto Selenicereus anthonyanus
Selenicereus anthonyanus

Estas são indicações perfeitas para quem quer cuidar de cactos dentro de casas e apartamentos. Ao contrário de seus primos do deserto, estas espécies não gostam de ficar torrando sob o sol pleno, preferindo um ambiente mais sombreado, ainda que com bastante luminosidade indireta. Em interiores, é importante que eles fiquem posicionados próximos a uma janela capaz de fornecer bastante luz difusa, que pode ser filtrada por uma cortina fina, nas horas de sol mais intenso.


Outra categoria bastante interessante, dentro desta família botânica, é representada pelos cactos que se assemelham a caudas de animais. Embora apreciem um pouco mais de luminosidade, estes cactos pendentes também não devem ser cultivados sob o sol pleno, muito intenso. São plantas de caules cilíndricos, pendentes, recobertos por espinhos longos e flexíveis, pouco agressivos, que se assemelham a pelos. O exemplo mais conhecido é o cacto rabo de macaco, Hildewintera colademononis.

Cacto Hildewintera colademononis
Hildewintera colademononis

Também temos a espécie Cleistocactus winteri, cujo apelido é cacto rabo de gato, com espinhos mais curtos e densos, e o cacto rabo de rato, cujo nome científico é Disocactus flagelliformis. Outra espécie bastante apreciada pelos colecionadores, que se encaixa nesta categoria, é o cacto samambaia, Selenicereus validus.

Cuidar destes cactos diferenciados não é trivial, uma vez que necessitam de substratos diferentes daqueles tradicionalmente utilizados no cultivo da maioria dos cactos e suculentas, geralmente arenoso. No caso dos cactos epífitos, uma mistura contendo casca de pinus, carvão vegetal e fibra de coco, componentes frequentemente encontrados em substratos comerciais desenvolvidos para orquídeas, é mais indicado. Este material pode ser misturado com uma parte equivalente de terra vegetal adubada, uma vez que estas cactáceas apreciam um solo mais rico em matéria orgânica.


Obviamente, devido ao porte pendente de seus caules, estes cactos desenvolvem-se melhor em vasos suspensos. Para que acidentes mais graves não aconteçam, o ideal é que estes recipientes sejam de plástico. Além de ser mais leve, este material ajuda a reter a umidade do substrato em seu interior por mais tempo, o que é benéfico, no caso destas espécies, em particular. No entanto, é importante que o vaso tenha furos no fundo e uma camada de drenagem, composta por argila expandida, pedrisco ou cacos de telha.

Embora tenham a capacidade de armazenar água em seus tecidos vegetais, os cactos de sombra ou de floresta estão habituados a ambientes que apresentam níveis mais elevados de umidade relativa do ar. Sendo assim, algumas espécies podem sofrer quando cultivadas em locais muito secos, principalmente dentro de cômodos com aparelhos de ar condicionado. Estas espécies também não gostam de varandas expostas a fortes correntes de vento, o que costuma ocorrer em apartamentos localizados em andares mais altos.

A frequência das regas também é diferenciada, no caso destes cactos de floresta. O substrato não deve secar completamente, ficando esturricado, como acontece no cultivo dos cactos de regiões áridas e semiáridas. O material deve ficar levemente úmido, sem excessos. No inverno, as regas podem ser realizadas de forma mais espaçada.


Já os cactos globulares ou globosos, popularmente conhecidos como cactos bola, são mais resistentes à seca, por armazenarem grandes quantidades de água em seus caules. Estas são espécies que se desenvolvem melhor sob sol pleno. Neste caso, o cultivo pode ser feito em um solo arenoso, mais pobre em nutrientes, composto por uma mistura de terra vegetal e areia grossa de construção. Sempre lembrando que a areia da praia não deve ser utilizada, por conter elevados teores de salinidade, prejudiciais ao desenvolvimento das raízes.

Além de serem bastante ornamentais, fazendo belíssimas composições em jardins de inspiração desértica, os cactos globulares são conhecidos por seus nomes exóticos e engraçados. A espécie mais famosa, neste quesito, é o Echinocactus grusonii, popularmente conhecido como cacto cadeira de sogra. Também há quem o chame de poltrona ou almofada de sogra.

Cacto Echinocactus grusonii
Echinocactus grusonii

Apesar dos apelidos hilários, trata-se de um cacto belíssimo. Outro cacto de caule globoso bastante conhecido é o Melocactus zehntneri, cujo nome popular mais famoso é coroa de frade.

Cacto Melocactus zehntneri
Melocactus zehntneri

Diversos outros cactos globulares, principalmente aqueles pertencentes ao gênero Mammillaria, costumam ser genericamente chamados de almofadas de alfinetes. Também temos o cacto ouriço, Echinopsis werdermannii, cacto capuz de monge, Astrophytum ornatum, Echinopsis oxygona e Parodia magnifica, entre muitos outros.


Ainda que estes cactos sejam mais apropriados para o cultivo em jardins ensolarados, é possível mantê-los em casas e apartamentos, desde que em parapeitos de janelas que recebam bastante luminosidade, preferencialmente face norte. Estas cactáceas também desenvolvem-se em varandas face leste ou oeste. Além disso, é possível cultivar estes cactos em jardineiras externas, nas janelas, desde que sejam expostas a várias horas de sol direto por dia.

Neste caso, o vaso mais indicado é o de barro ou cerâmica, já que sua porosidade permite que o substrato arenoso em seu interior seque mais rapidamente. Também é essencial que este recipiente tenha uma boa camada de drenagem. Por cima deste material, uma manta geotêxtil ajuda a reter o solo, além de impedir que as raízes dos cactos entupam os drenos.

As regas devem ser bem espaçadas, de modo a permitirem que o substrato seque completamente. No inverno, é importante que a frequência das irrigações seja drasticamente reduzida. Neste período, a adubação também pode ser suspensa.


Estas mesmas dicas de cultivo também se aplicam à maioria dos cactos colunares, os mais frequentemente encontrados no mercado. Ainda que seja mais comum vê-los em áreas externas, é perfeitamente possível mantê-los dentro de casas e apartamentos, desde que haja bastante luminosidade disponível. Nesta categoria, temos o belíssimo cacto azul, Pilosocereus pachycladus, que pode se transformar em um importante ponto focal, em ambientes internos.

Cacto Pilosocereus pachycladus
Pilosocereus pachycladus

Outro cacto colunar bastante apreciado pelos colecionadores é o Cereus peruvianus tortuosus, popularmente conhecido como cacto parafuso.

Cacto Cereus peruvianus tortuosus
Cereus peruvianus tortuosus

Também nesta categoria, não poderíamos deixar de mencionar os famosos cacto mandacaru, cujo nome científico é Cereus jamacaru, cacto xique xique, Pilosocereus gounellei, e cacto do Peru, Cereus repandus, entre muitos outros.

É importante que estes cactos sejam cultivados em vasos de cerâmica ou cimento, materiais mais densos e pesados, de modo a evitarem que as plantas tombem lateralmente, devido ao seu centro de gravidade mais elevado.

No caso dos cactos colunares, tanto a falta de luminosidade como o excesso de adubos ricos em nitrogênio são fatores que causam um crescimento anômalo do caule, de forma mais acelerada. Desta forma, os tecidos vegetais ficam mais delgados e frágeis, comprometendo a saúde da planta. Além disso, esta é uma condição que propicia o ataque de pragas, principalmente cochonilhas e pulgões.


Devido à estrutura complexa e intrincada das cactáceas, é frequente que estes insetos consigam se esconder em locais que não costumamos visualizar. Quando percebemos a infestação, pode ser tarde demais. Portanto, é importante fazer uma inspeção cuidadosa e periódica, para eliminar pontos de pragas o quanto antes. Eu prefiro fazer a remoção manual, borrifando uma mistura de água e detergente líquido neutro. Hastes flexíveis e escovas macias também podem ser utilizadas, para ajudar na remoção dos insetos.

Outro grupo bastante conhecido, dentro da família Cactaceae, é aquele composto pelos cactos em forma de palmas ou raquetes. De modo geral, as espécies mais representativas pertencem ao gênero Opuntia. Entre os colecionadores, o exemplo mais conhecido é o cacto orelha de Mickey, Opuntia microdasys. Por apresentar um porte compacto, esta é uma espécie de cacto ideal para ser cultivada dentro de casas e apartamentos. No entanto, é preciso fornecer bastante luminosidade, para que seu formato característico seja preservado.

Cacto Opuntia microdasys
Opuntia microdasys

Ainda nesta categoria, temos o famoso cacto palma, Opuntia cochenillifera, e a onipresente figueira da Índia, Opuntia ficus-indica.

Como podemos perceber, a diversidade de formas, tamanhos, cores e habitats das cactáceas é surpreendente. Por este motivo, cuidar de cactos não é tão trivial quanto pode parecer, em um primeiro momento. O importante é fazer a correta identificação da espécie em questão, para que os devidos cuidados sejam adotados, de acordo com o ambiente nativo de cada cacto.

Ainda que sejam plantas extremamente resistentes, que requerem pouquíssima manutenção, elas não são indestrutíveis, como muitos imaginam. Na verdade, é bastante comum que os cultivadores principiantes acabem matando seus cactos por excesso de cuidados, principalmente em relação às regas.

Para saber mais detalhes sobre o cultivo de cactos específicos, basta clicar em qualquer link ao longo deste artigo. Também há um diretório com todas as matérias já publicadas sobre cactáceas no blog, neste link.

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Bacharel em biologia pela Unicamp, com mestrado e doutorado em bioquímica pela Usp, escreve sobre o cultivo de orquídeas, suculentas, cactos e outras plantas dentro de casas e apartamentos.

São Paulo, SP, Brasil