Haste da orquídea - Corto ou não corto?


Laeliocattleya Pink Favourite
Laeliocattleya Pink Favourite

Devo cortar a haste da orquídea? Como cortar a haste da orquídea? Estas são questões que costumo receber com bastante frequência, aqui no blog. Após o término da floração das orquídeas, muitos ficam em dúvida sobre o que fazer com as hastes florais, que podem se manter verdes ou começar a secar. Cortar ou não cortar? Parece uma questão banal para o cultivador experiente, mas confesso que também tinha esta dificuldade, no começo.

A verdade é que não há uma solução única para este dilema. As milhares de espécies de orquídeas e seus híbridos produzem florações diferentes entre si. Cada haste floral apresenta um comportamento característico do gênero ou espécie em questão. Dentre as muitas variáveis em jogo, estão as vontades da própria orquídea e de seu dono.

De modo geral, as orquídeas são plantas que não necessitam de podas constantes. Uma dúvida frequente do iniciante é sobre como podar sua orquídea. Ao contrário de roseiras, por exemplo, que requerem podas de formação, manutenção e floração, as orquídeas apenas precisam que algumas folhas, bainhas e hastes secas sejam retiradas, para não virarem abrigos de pulgões e cochonilhas. Espatas secas, por sua vez, precisam ser poupadas dos cortes, uma vez que podem ocorrer florações tardias a partir destas estruturas já passadas.

Neste contexto, apresento a seguir alguns dos pontos importantes a serem considerados, em relação às diferentes hastes de orquídeas, para que a melhor decisão seja tomada.


A natureza da orquídea


Como existem milhares de espécies de orquídeas, é fundamental sabermos as particularidades de cada planta que estamos cultivando. Algumas orquídeas, talvez a maior parte delas, simplesmente não florescem novamente na mesma haste, após o fenecer das flores. Punto e basta, como dizem os italianos.

Determinadas orquídeas, no entanto, apresentam esta capacidade de emitir novas flores a partir das hastes florais antigas. O caso mais emblemático é o da Phalaenopsis. Outro exemplo, talvez menos conhecido, é o da orquídea Tolumnia. Na maioria dos casos, são as variedades híbridas destes dois gêneros que costumamos encontrar no mercado.

Para estas orquídeas, existe a possibilidade de uma nova floração ocorrer na mesma haste. Contudo, este evento não é líquido e certo. Tudo vai depender de uma segunda questão, que concerne à própria orquídea.

Orquídea Phalaenopsis híbrida
Phalaenopsis híbrida

A vontade da orquídea


Frequentemente, mantemos as hastes florais de uma orquídea Phalaenopsis ou Tolumnia, na esperança de uma segunda floração e, por vezes, ficamos a ver navios. A haste simplesmente seca. Neste caso, a única solução é cortá-la. 

Eu, particularmente, prefiro sempre cortar as hastes e espatas secas, não só por uma questão estética, mas também por motivos fitossanitários. É bastante comum que estas estruturas sejam atacadas por fungos e bactérias, além de serem potenciais abrigos para certos insetos, como cochonilhas.

Caso a orquídea esteja de bom humor, ou graças a uma série de condições climáticas e culturais que desconhecemos, sua haste antiga pode emitir novas flores, em hastes secundárias. Este bônus de floração, no entanto, costuma ter seu preço. Geralmente, a quantidade de flores é menor. Outro problema é que a orquídea não descansa, emitindo uma floração após a outra. Em alguns casos, este processo pode debilitar a planta.

Outra situação bastante comum, no caso da Phalaenopsis, é que da haste floral surjam keikis, brotos que irão gerar uma nova planta. As condições que determinam se uma planta vai emitir flores ou keikis ainda não são bem conhecidas. Portanto, é sempre uma surpresa a cargo da orquídea.


Keiki de orquídea Dendrobium loddigesii
Keiki de Dendrobium loddigesii

A vontade do dono da orquídea


Como em todas as áreas, o ser humano também pode colocar seu dedinho e interferir neste processo de floração das orquídeas. Caso o cultivador deseje ter uma bela floração, com aquelas hastes repletas de flores perfeitamente simétricas, o melhor a fazer é cortar a haste antiga, rente à base, e cuidar muito bem da orquídea, aguardando sua nova floração no ano seguinte. 

Neste período, a orquídea terá a oportunidade de descansar, emitir novas folhas e raízes, armazenando recursos para a próxima florada. Quando a ocasião chegar, ela emitirá uma ou mais hastes florais do zero, a partir das axilas de suas folhas, produzindo um belo espetáculo de floração.

Outros cultivadores, no entanto, preferem ter a casa florida por mais tempo. Neste caso, é possível manter a haste floral antiga e aguardar por uma eventual segunda floração. Esta, no entanto, costuma vir com menos vigor.


Como cortar a haste da orquídea


Algumas pessoas, com o intuito de estimular a brotação de novas ramificações, cortam a haste antiga em determinados pontos. Não há uma regra fixa, eu mesmo nunca fiz isso. Mas já li recomendações de se cortar a haste no terceiro nódulo, contando de baixo para cima. Sempre lembrando que este procedimento aplica-se somente ao caso da orquídea Phalaenopsis. A teoria por trás deste corte é a dominância apical, sobre a qual já falamos em outro artigo aqui no blog. A secção da haste floral produz uma redistribuição dos hormônios vegetais de crescimento, fazendo com que as gemas dormentes mais próximas à extremidade cortada despertem, adquirindo a capacidade de produzir flores e keikis. Estas gemas funcionam como células-tronco vegetais, uma vez que podem se multiplicar e gerar novas estruturas diferentes.

Alternativamente, o corte pode ser feito na base da haste floral, eliminando-a por completo. Em ambos os casos, é importante que o instrumento de corte esteja bem afiado e esterilizado. O melhor meio de eliminar fungos, bactérias e, principalmente, vírus, é passar a lâmina no fogo. Pode ser na boca de um fogão. Além disso, existem pequenos maçaricos portáteis para este fim. Este procedimento torna-se ainda mais importante se forem realizados cortes sequenciais em várias orquídeas. Para evitar que doenças sejam transmitidas de uma planta para outra, o instrumento deve ser esterilizado no fogo, entre um corte e outro.

Há também o conselho de se passar canela em pó no corte. Dizem que é para estimular o crescimento de hastes florais ou brotos (keikis), mas não acredito que isso aconteça. De qualquer forma, a canela pode prevenir que o corte seja invadido por fungos ou bactérias. Não há estudos que comprovem a propriedade cicatrizante da canela em pó sobre tecidos vegetais. O que se sabe, através de experimentos científicos, é que a canela é rica em uma substância antioxidante chamada cinamaldeído. Esta molécula orgânica é a responsável pelo odor característico da canela. Há trabalhos científicos que comprovam as propriedades antifúngicas e bactericidas do cinamaldeído, entre outras.

Como puderam notar, a resposta a uma questão aparentemente simples - corto ou não corto a haste floral da orquídea - é longa, complicada e talvez enfadonha. Mas é o que costumo explicar aos leitores que frequentemente me procuram para sanar dúvidas a este respeito.


Economia de energia


Como todos os seres vivos, as orquídeas seguem um ciclo de vida composto por uma série de eventos ordenados cronologicamente, cujo objetivo final é a reprodução e perpetuação da espécie. Após as etapas de crescimento e maturação, em que a planta armazena energia e recursos vitais, ocorre finalmente a floração. No caso da orquídea Phalaenopsis, por exemplo, o tamanho de suas folhas é um indicativo do seu nível de maturação. Quanto maiores e mais numerosas estas estruturas, melhores e mais abundantes serão as florações da orquídea em questão.

Caso sejam polinizadas, as flores produzirão frutos e sementes, que por sua vez irão gerar novos indivíduos. Esta etapa crucial de floração e frutificação exige bastante da orquídea, aumentando o consumo de energia. Caso as condições climáticas e fisiológicas não estejam bem ajustadas, a planta pode morrer devido ao stress em uma fase delicada do seu ciclo vital. Muitas orquídeas, após a floração, entram em um período de dormência, em que nenhuma atividade vegetativa é observada. Esta é uma fase importante de descanso, em que a planta se prepara para um novo ciclo de crescimento e floração.

Por todos estes motivos, concluo com um posicionamento que é apenas pessoal. Eu costumo cortar as hastes logo após o término da floração, bem rente à base. Acredito que, ao fazer isso, tenho mais e melhores flores no ano seguinte. Além disso, proporciono um descanso à orquídea, que segue seu ciclo natural de crescimento vegetativo. No ano seguinte, haverá mais raízes e suas folhas estarão maiores e mais numerosas, aptas a sustentar uma floração mais abundante.

Mas nada é rígido, existem sempre outras possibilidades. Há quem prefira manter a haste floral e aguardar por uma segunda floração ou mesmo pelo surgimento de keikis. Cultivar orquídeas nunca é monótono, sempre há surpresas reservadas a quem sabe aguardar e observar.