Guia completo para cultivar plantas dentro de casas e apartamentos

By Sergio Oyama Junior

Keikis de Orquídeas - O que são e como cuidar


Keiki da orquídea Dendrobium loddigesii
Keiki de Dendrobium loddigesii

Uma das coisas que mais me fascinam no cultivo de orquídeas é poder acompanhar o desenvolvimento de um pequeno broto, desde as primeiras raízes até a floração completa. Existem basicamente dois tipos de orquídeas bebês. Um nasce a partir de sementes microscópicas e leva vários anos até atingir a idade adulta. Apesar de ser um processo longo e complicado, que ocorre espontaneamente na natureza, existem atualmente técnicas de laboratório capazes de reproduzir este fenômeno em larga escala. É desta forma, através de sementes germinadas in vitro, que as orquídeas são produzidas comercialmente em larga escala.

O que é keiki de orquídea


Outro filhote, este mais comumente observado no cultivo doméstico, é o broto que surge a partir de orquídeas adultas. Esta estrutura é frequentemente chamada pelos orquidófilos de keiki (palavra havaiana que significa bebê). Alternativamente, algumas pessoas utilizam o termo keike. No entanto, a grafia original da palavra na língua havaiana é keiki.

Todas as pessoas que têm orquídeas em casa acabam se deparando com um broto deste tipo, mais cedo ou mais tarde. Alguns gêneros, como Dendrobium e Epidendrum, por exemplo, são pródigos na arte de produzir keikis. Estes, ao contrário dos filhotes originados a partir de sementes, em pouco tempo tornam-se plantas adultas e aptas a florescerem. A seguir, vamos falar um pouco sobre estas curiosas estruturas que, na melhor das hipóteses, acabam nos oferecendo uma nova orquídea de graça.



Como surgem os keikis


Todas as orquídeas possuem pequenas estruturas denominadas gemas. São aqueles nódulos ao longo da haste da Phalaenopsis ou as saliências nos pseudobulbos em forma de cana do Dendrobium. Cada um destes nozinhos representa um conjunto de 'células tronco'. Dependendo do estímulo, uma mesma gema pode produzir diferentes estruturas vegetais, tais como flores ou brotos. Estas células são chamadas de totipotentes.

Algumas condições climáticas e de cultivo determinam a formação de keikis em orquídeas. Infelizmente, nem todos os fatores são completamente compreendidos ou controlados, como veremos a seguir. Em alguns casos, ficamos na expectativa e nunca sabemos se a orquídea produzirá keikis ou novas florações.

No caso das orquídeas do gênero Dendrobium, muitas espécies precisam de um período de seca no outono/inverno, processo denominado stress hídrico. Sob estas circunstâncias, a planta entende que é época de florescer e transforma suas gemas em flores. Por outro lado, quando continuamos regando estas orquídeas, enviamos um sinal de que não é o período de floração. Neste caso, a planta produz keikis. É muito frequente ler relatos de leitores que reclamam do fato se sua orquídea Dendrobium apenas produzir brotos laterais, nunca flores. De modo geral, este fenômeno ocorre devido à falta do stress hídrico na época adequada.

As orquídeas do gênero Phalaenopsis, por sua vez, são mais temperamentais. Todos já viram aquele pequeno broto, com folhas e raízes, pendurado em uma haste cuja floração já acabou. Dependendo de fatores que não são completamente compreendidos, algumas gemas dormentes desta haste podem acordar e produzir uma nova floração ou filhotes. Os fatores climáticos que vão determinar qual destas estruturas vai ser produzida ainda não foram determinados. É sempre uma surpresa. Para tentar contornar esta situação, existe no mercado internacional a keiki paste, um produto vendido nos EUA, à base de hormônios vegetais, que promete estimular a formação de novos brotos a partir de gemas adormecidas. Trata-se de um produto caro, nunca testei para ver se dá bons resultados. Mas morro de curiosidade.



Os keikis também podem ser a salvação de uma orquídea. Aquelas plantas com crescimento monopodial, como Phalaenopsis e Vanda, só podem crescer a partir de um único ponto, para cima. Às vezes, por excesso de água ou devido a alguma doença ou acidente, este ponto apical por onde as novas folhas surgem é comprometido. Nestas orquídeas, isto significa a morte da planta. Felizmente, existe a possibilidade de emitirem um keiki lateral, a partir da base ou da axila das folhas, de modo a gerar uma cópia que garantirá a sobrevivência daquela orquídea.

É importante observar que tanto as flores como os keikis asseguram a perpetuação da espécie. No entanto, os bebês são plantas idênticas à orquídea mãe, ao passo que as flores podem ser polinizadas por outros indivíduos, gerando uma variabilidade genética que é fundamental para o meio ambiente.

Keiki da orquídea Epidendrum fulgens
Keiki de Epidendrum fulgens

Como cuidar de um keiki


Uma das perguntas que mais recebo vem de pessoas querendo saber como cuidar dos keikis de orquídea. O primeiro e mais importante passo é deixar o keiki sossegado, lá onde está. Enquanto permanecer conectado à planta mãe, estará recebendo os nutrientes necessários ao seu desenvolvimento. Sendo assim, não corre o risco de morrer desidratado, em uma fase delicada do desenvolvimento, onde geralmente as raízes são incipientes ou inexistentes. É bem verdade que a tentação de destacá-lo e plantá-lo em um vasinho separado é grande.

No entanto, neste período, o mais importante é aguardar até que o projeto de orquídea desenvolva raízes em tamanho e número suficientes para garantirem a sobrevivência da muda após a separação. Não existe uma regra fixa para o momento certo de destacarmos o keiki da mãe. Alguns preferem mantê-los no mesmo local, indefinidamente. Quando florescerem, todos juntos, produzirão um belo espetáculo. Espero que seja o caso do Dendrobium loddigesii que ilustra este artigo, orquídea conhecida por produzir keikis loucamente.

Em algumas situações, como no caso dos brotos nascidos na haste de Phalaenopsis, não dá para mantê-los lá indefinidamente. Chega um momento em que a haste seca e é necessário replantar a nova orquídea. Um cuidado que algumas pessoas recomendam tomar, neste caso, é fornecer bastante umidade às raízes do keiki. Elas podem ser constantemente borrifadas, de modo a não ressecarem. Também podem ser envoltas em um chumaço de musgo sphagnum, medida que ajuda a mantê-las hidratadas até o momento da separação.

De modo geral, quanto maior, mais desenvolvido, e com o maior número possível de raízes estiver o keiki, melhores serão suas chances de sobrevivência e crescimento após ser desligado da planta mãe.



Como plantar o keiki


A parte mais crítica e traumática, ao menos para mim, é o momento de separar o bebê orquídea da mãe. Tenho pavor de causar algum dano ao broto, às raízes ou à própria genitora. No caso de Dendrobium, em que o keiki está agarrado ao pseudobulbo, costumo destacá-lo com as mãos. Puxando e rotacionando o broto, delicadamente, conseguimos separá-lo sem maiores problemas.

No caso das orquídeas Epidendrum e Phalaenopsis, em que o broto está pendurado ha haste floral, eu prefiro fazer cortes na haste, antes e depois do ponto de inserção da muda. Desta forma, não há dano algum ao keiki e a haste não terá mais função, a esta altura.

Para plantar a nova orquídea, o melhor é tratá-la inicialmente como um seedling, nome dado às plântulas nascidas de sementes. É preciso fornecer bastante umidade, sem encharcar o substrato. Eu prefiro usar musgo sphagnum em vasos de plástico bem pequenos. Nesta fase, o tamanho do vaso é importante, já que recipientes muito grandes demoram mais a secar, gerando o risco de causarem o apodrecimento das raízes do keiki.

Inicialmente, é bom manter a muda em local mais sombreado, até que as raízes se desenvolvam e o keiki fique mais forte. Um bom enraizador ajuda bastante nesta etapa de aclimatação. A adubação pode começar a ser feita algumas semanas após o plantio, preferencialmente uma fórmula de crescimento, mais rica em nitrogênio, recomendada para mudas jovens.

Se tudo correr bem, em apenas um ou dois anos a orquídea bebê estará produzindo suas próprias florações. Neste momento, mais um belo ciclo da vida se completará.