Como engravidar uma orquídea


Mini-orquídea Sophrocattleya Batemaniana
Sophrocattleya Batemaniana

Há algumas semanas, eu contei neste artigo sobre o evento inesperado que ceifou precocemente a floração desta mini-orquídea Batemaniana, uma das mais belas que já vi por aqui. Poucos dias após a abertura da flor, observei que o labelo começou a secar. Fiquei chateadíssimo. Como as demais pétalas e sépalas continuavam vistosas, mantive a flor por mais um tempo. Em outras ocasiões, minha reação natural teria sido cortar a flor, para evitar o desgosto de vê-la fenecer ainda tão jovem.

Para minha surpresa, esta bela orquídea não estava morrendo, como eu imaginava. Ao longo dos dias seguintes, observei o entumecimento gradual do pedúnculo floral, aquela pequena haste que sustenta a flor. Logo entendi o que havia acontecido e estremeci de felicidade: a orquídea estava grávida! É justamente nesta região do 'cabinho' da flor que se alojam os ovários. Quando a orquídea é fecundada, o pedúnculo começa a se inflar para, no futuro, dar origem a uma cápsula de sementes.

O curioso é que eu já havia tentado, por várias vezes, polinizar algumas flores de orquídea, sem sucesso. Desta vez, a natureza encarregou-se de fazer todo o trabalho, sem que eu percebesse. A seguir, vou descrever de forma resumida os processos para se obter uma orquídea grávida, como a da foto.

1. Método artificial


Este é o procedimento utilizado pelos produtores de orquídeas, que dedicam-se ao cruzamento controlado de excelentes plantas matrizes, em busca de novas e mais belas formas e cores. A grande maioria das orquídeas é hermafrodita, ou seja, possui em uma mesma flor os elementos reprodutores masculino e feminino. Ao contrário das flores que conhecemos, que comumente lançam milhares de partículas de pólen ao vento, as orquídeas possuem polínias, que são um aglomerado condensado de grãos microscópicos de pólen. O número de polínias em uma mesma flor varia conforme o gênero de orquídea.

Com a ponta de um pequeno palito de madeira, encostamos delicadamente nestas estruturas em forma de pequenas esferas, que imediatamente destacam-se da flor doadora e aderem-se ao palito. Depois, basta encaminhar-se à flor receptora e inserir estas pequenas massas de pólen na cavidade gelatinosa do estigma, a entrada do aparelho reprodutor feminino da flor. Parece simples, mas é um processo bastante delicado. Como minhas mãos são firmes como gelatina, chego a suar frio de tanto nervosismo. No caso de mini e micro-orquídeas, o processo é quase impossível para mim, já que a visão e a idade conspiram contra.

Mesmo quando tudo vai bem, em relação à parte mecânica da polinização artificial, pode ser que a fecundação não ocorra de fato. Diversos fatores, como a compatibilidade entre os pares envolvidos, estágio de maturação de cada uma das flores, fases da lua, marés, tudo interfere.

2. Método natural


Este é o processo mais bonito de se observar, apesar de lidarmos com o imponderável. Neste caso, precisamos de ajudantes, os agentes polinizadores. Podem ser abelhas, mariposas, formigas, pequenos pássaros. O problema, neste caso, é que não podemos controlar quem vai cruzar com quem. Deste modo, a cápsula de sementes resultante é uma incógnita. Na natureza, este fenômeno é o responsável pela beleza e riqueza de formas e cores das orquídeas que lá encontramos, sejam espécies ou híbridos primários naturais. É graças ao trabalho incessante destes polinizadores que temos a variabilidade genética da flora que ainda cobre o planeta.

3. Método misto


No caso aqui das orquídeas no apê, tudo é sempre mais atrapalhado e imprevisível. Após inúmeras tentativas de polinização artificial, eis que surge do nada uma orquídea naturalmente polinizada. Não sei quem foi o responsável, é raríssimo eu encontrar um inseto na varanda. No entanto, esta fecundação não pode ser considerada puramente natural, já que envolve orquídeas híbridas, produzidas em laboratório pelo homem.

No meu caso, a única coisa que sei é a identidade da mãe, Sophrocattleya Batemaniana, a orquídea grávida da foto, que foi retratada em seu momento wabi-sabi, com as pétalas já definhando. Quanto ao pai, tenho um suspeito, mas não sei ao certo. Lembro-me que na época havia uma outra orquídea florida na sacada, a Sophrolaelia Marriotiana. Se fosse este o pai, seria um casal maravilhoso e provavelmente gerariam uma bela e interessante prole. Mas não há como ter certeza. O pólen pode ter vindo de outras orquídeas da vizinhança, ou pode ser da própria orquídea grávida.


Apesar destas indefinições, a decepção da morte precoce desta orquídea, e a subsequente surpresa de sua gravidez, resultaram em uma experiência única, a alegria de presenciar um sublime processo que mostra, ao menos no caso das flores, que existe vida após a morte.