Guia completo para cuidar de plantas dentro de casas e apartamentos

Sergio Oyama Junior

Espata Floral em Orquídeas


Espata floral em orquídea Potinara
Espata floral em orquídea Potinara

Quando chega o momento de uma orquídea Phalaenopsis florescer, ela simplesmente emite uma haste, desenvolve botões florais e os mesmos se abrem, no momento oportuno. O mesmo ocorre com diversas outras orquídeas, como Oncidium e Dendrobium, por exemplo. Já no caso das orquídeas do gênero Cattleya e suas parentes próximas, Brassavola, Laelia e Sophronitis, incluindo os híbridos resultantes desas orquídeas, a coisa é um pouco mais complicada. Para nós, que assistimos ao processo, não para elas, que o desempenham. Antes que as flores surjam, em alguns gêneros de orquídeas, existe uma etapa intermediária, que pode gerar bastante suspense.

Nestes casos, há a participação de uma personagem bastante temperamental, a espata floral. Trata-se de uma estrutura vegetal especializada, que funciona como um invólucro que protege os botões durante o seu desenvolvimento, conforme mostrado na foto acima. As espatas podem ser simples ou duplas, compostas por uma ou duas lâminas formando o envelope protetor. Este é, inclusive, um dos critérios para distinguir diferentes espécies de orquídeas, principalmente aquelas pertencentes à aliança Cattleya.

No entanto, a aparição de uma espata não é garantia de que flores surgirão na sequência. Já vi orquídeas cujas espatas nasceram, cresceram e secaram, sem jamais dar qualquer sinal de floração. Vários fatores contribuem para que este fenômeno ocorra. Alterações climáticas bruscas, como elevação ou queda de temperatura, excesso de água, correntes de vento ou mesmo doenças podem fazer com que a floração da orquídea seja abortada. Nestes casos, embora a espata floral tenha surgido, nada cresce em seu interior.


Outra circunstância bastante infeliz ocorre quando há um acúmulo de água no interior da espata. Este é um fenômeno que precisa ser evitado a todo custo. Normalmente, a espata é bem lacrada. No entanto, em algum momento do seu desenvolvimento, o envelope pode se abrir. Isto ocorre até mesmo devido à pressão decorrente do crescimento dos botões florais em seu interior. Neste caso, é importante que as regas sejam efetuadas com bastante cautela. Também é bom proteger a orquídea da chuva. Isto porque a espata pode se encher de água, que fica acumulada ao redor dos botões florais, ocasionando seu apodrecimento.

Também é comum observarmos o surgimento de espatas vazias quando a orquídea não está madura o suficiente para florescer. Durante o desenvolvimento e maturação de uma orquídea, cujo crescimento  é simpodial, onde vários pseudobulbos são emitidos sequencialmente, podemos observar que os mesmos vão aumentando de tamanho, a cada geração. Este é um sinal positivo, de que a orquídea está sendo adequadamente cultivada. Em um primeiro momento, os pseudobulbos surgem sem espatas, quando a orquídea ainda é muito jovem. A partir de um certo ponto, aparece o primeiro pseudobulbo portando uma espata floral. Na foto abaixo, a sequência de crescimento é da direita para a esquerda, sendo o pseudobulbo maior, com espata, o mais recente.

Sequência de pseudobulbos até a primeira espata
Sequência de pseudobulbos até a primeira espata

Quando isso acontece, o dono da orquídea fica todo ouriçado, imaginando que este é o prenúncio de uma bela floração. Mas nada surge a partir daquela espata e ele fica a ver navios. O processo se repete até que, finalmente, o próximo pseudobulbo produz uma espata que se enche de botões florais. Trata-se de um desenvolvimento gradual, que depende simplesmente da maturidade da orquídea em questão. Neste caso, basta seguir com os cuidados rotineiros até que o momento certo para a floração aconteça. É apenas uma questão de tempo e paciência.

Espata floral em orquídea Cattleya
Espata floral em orquídea Cattleya

Tanto orquídeas monofoliadas, como é o caso da Cattleya labiata, quanto orquídeas bifoliadas, como a Cattleya bicolor, produzem florações a partir de espatas. A morfologia e composição destas estruturas são típicas para cada espécie. Como mencionamos, as espatas podem ser simples ou duplas. Já no caso da Cattleya walkeriana, o mais comum é que ela produza um pseudobulbo diferenciado, específico para floração. A variedade princeps desta orquídea, por sua vez, floresce a partir do ápice de um pseudobulbo convencional. O mesmo ocorre com a Cattleya nobilior.


Embora seja mais comum observarmos a ocorrência de espata floral em orquídeas do gênero Cattleya e Laelia, outros membros da família podem produzir esta estrutura geniosa. Na foto abaixo, observamos a delicada espata de um insuspeito Epidendrum peperomia.

Espata floral em Epidendrum
Espata floral em Epidendrum

Nesta intrincada novela da espata em orquídeas, há ainda uma outra possibilidade. Pode ocorrer um caso em que o pseudobulbo produz uma espata floral e a mesma seca, sem dar flores. O cultivador, desapontado, corta a espata seca. Tempos depois, percebe o nascimento tardio dos botões florais, que definham sem a proteção da espata cortada. Uma tragédia anunciada.

Botões florais surgindo a partir de espata seca
Botões florais surgindo a partir de espata seca

De fato, algumas orquídeas são conhecidas por emitirem os botões florais a partir de espatas secas e desacreditadas. Portanto, a regra é nunca cortá-las. Por mais que uma espata fique seca e encarquilhada, sempre a mantenha. Pode ser que nada aconteça, mas existe a possibilidade de que botões florais surjam a partir destas estruturas. Sempre há esperança. Na imagem acima, vemos um exemplo de orquídea que produziu uma espata, passou-se o tempo e ela começou a secar. Tempos depois, os botões florais surgiram.


Por fim, ainda existem orquídeas que florescem do nada, sem o aviso prévio da espata. A Laelia alaorii é um exemplo clássico e bastante interessante. Isto porque, no caso desta mini orquídea, a própria folha, no ápice do pseudobulbo, faz as vezes de espata. Os botões florais desenvolvem-se incógnitos, no interior destas folhas ainda fechadas. Quando o pseudobulbo está suficiente maduro, e as folhas se abrem, lá está o botão floral todo serelepe, já bem formado e prestes a desabrochar. O mesmo ocorre no caso da floração da Sophronitis cernua, que também se dá em ausência de espata.

Botão floral sem espata na Laelia alaorii
Botão floral sem espata na Laelia alaorii

Como podemos observar, uma orquídea não necessariamente precisa produzir uma espata para florescer. Por outro lado, o surgimento desta estrutura não é obrigatoriamente um prenúncio de floração. Há ainda a possibilidade de que, mesmo seca, a espata produza botões florais, tardiamente. Conhecer o padrão de floração de cada espécie de orquídea, com ou sem espata, seca ou não, é importante para que possamos adequar as condições de cultivo, evitando que acidentes sabotem o surgimento das flores.