Cattleya bicolor desabrochando


Orquídea Cattleya bicolor
Cattleya bicolor

Confesso que fiquei agradavelmente surpreso com a quantidade de comentários referentes à última postagem aqui no blog, bem como com o teor das mensagens de apoio e incentivo que recebi no decorrer deste pequeno recesso.

Foi em consideração aos leitores e amigos que acompanham este trabalho que decidi continuar a publicar artigos neste espaço, que para mim é um lar virtual, a despeito da situação não muito favorável das Orquídeas no Apê. Against all odds, uma ou outra orquídea insiste em florescer aqui na varanda, ensinando-me que nenhum esforço é em vão e que a alegria está em trilhar e persistir na trajetória, muito mais do que viver o êxito da chegada.

Para comemorarmos juntos esta retomada, trouxe hoje a imagem do desabrochar da orquídea Cattleya bicolor, cuja primeira floração apresentei aqui há exatamente um ano. Desta feita, vivi momentos de apreensão ao observar a espata vazia, estacionada e começando a secar. Cheguei a temer que não veria flores neste ano. Contrariando meu pessimismo, dois saudáveis botões florais começaram a crescer e emergiram lentamente do interior desta estrutura aparentemente em decadência. 

Encontrei, neste fenômeno, uma metáfora perfeita para a situação que vivo no momento. Apesar de ver tantas orquídeas doentes, morrendo ou simplesmente estáticas como múmias, em meio ao sol inclemente, ventanias e tempestades de granizo, percebo que a natureza segue altaneira seu curso, alheia às adversidades, e mostrando-nos o quão pouco sabemos sobre os mistérios da vida.




A saga das Orquídeas no Apê


Orquídea Laelia longipes
Laelia longipes

Tudo bem, Pessoal? Hoje, venho compartilhar algumas reflexões acerca do modus operandi deste humilde orquidófilo e suas consequências nas vidas das orquídeas que por aqui passam.

Após anos de cultivo, percebo um certo padrão no ciclo de vida das plantas que têm o infortúnio de cair em minhas mãos.

Aquelas orquídeas que compro pela internet costumam chegar detonadas. Imagine a criatura crescendo bela e feliz em uma estufa, com todas as regalias, em um ambiente de cultivo milimetricamente controlado. Subitamente, a coitada é arrancada do vaso, embrulhada em um pedaço de jornal, enfiada em uma caixa e passa dias sufocada, sendo jogada de um lado para o outro, nos correios.

Aqui no apartamento, estas plantas costumam levar anos em um processo de adaptação. Muito frequentemente, após uma lenta agonia, morrem sem sequer terem a chance de florescer.

As orquídeas que compro ou ganho pessoalmente, por outro lado, chegam exuberantes. Já adaptadas em seus vasos, muitas vezes floridas, mostram no viço de suas folhas e raízes o excelente tratamento a que foram submetidas.

Nestes casos, o padrão que costumo observar é outro. Estas orquídeas passam alguns anos saudáveis, florescendo uma ou duas vezes por ano, até que, por algum motivo, entram em um processo de decadência. O primeiro sinal é que param de emitir novos brotos e raízes. Em seguida, percebo um aumento significativo na incidência de pragas, principalmente cochonilhas.

Após algum tempo estacionadas, lutando contra as intempéries da varanda, e a despeito de replantes e tratamentos, acabam passando desta para melhor. Este processo é bastante comum em orquídeas mais sensíveis, tais como Sophronitis e Masdevallia. Mas já presenciei este fenômeno em Cattleya e Dendrobium, teoricamente mais resistentes.

Resumo da ópera: mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, todas acabam morrendo!

Trata-se de algo perfeitamente compreensível, dadas as minhas condições inóspitas de cultivo. Durante estas últimas tempestades de verão, presenciei vasos sendo derrubados e arrastados pelo vento, sem nada poder fazer. 

É algo que desanima bastante e que tem me desmotivado a fazer novas aquisições. No momento, sinto que tenho empurrado este hobby com a barriga. Peço desculpas pela falta de novidades, tenho refletido bastante a respeito destes problemas e tentado encontrar maneiras de contorná-los.




Orquídeas Terrestres


Orquídea Paphiopedilum híbrida
Paphiopedilum híbrido

As orquídeas terrestres, também conhecidas como orquídeas de chão, de jardim ou de terra, são mais uma prova da grande diversidade encontrada na família Orchidaceae. Como sabemos, as orquídeas podem ser agrupadas em diferentes categorias, de acordo com seu hábito vegetativo.

Aquelas chamadas de epífitas, que vivem sobre as árvores, são as mais numerosas representantes da família, sendo mundialmente apreciadas e colecionadas. No entanto, há também as orquídeas rupícolas, que costumam vegetar sobre as rochas. Suas raízes, na verdade, estão sendo nutridas pelo material orgânico que se deposita nas fendas entre as pedras. Lá também encontram a umidade necessária para sobreviverem. 

Da mesma forma, há uma subdivisão entre as orquídeas ditas terrestres, composta pelas orquídeas humícolas. Estas, apesar de parecerem terrestres, por viverem no solo, têm na verdade suas raízes apoiadas sobre o húmus, uma camada de folhas em decomposição e demais detritos que se acumulam no chão das florestas. Sendo assim, suas raízes não estão efetivamente enterradas.

Este é o caso das orquídeas dos gêneros Paphiopedilum (na foto de abertura deste artigo) e Phragmipedium (na foto abaixo). Aqui no Brasil, é comum encontrarmos a orquídea Paphiopedilum Leeanum, a famosa orquídea sapatinho, sendo cultivada em vasos de terra ou diretamente no solo, como uma planta de jardim. Ela é bastante resistente e se adapta perfeitamente. Apesar desta possibilidade, e devido à natureza humícola, a maioria dos orquidófilos costuma utilizar misturas de substratos para o cultivo de orquídeas destes dois gêneros. Na composição pode estar presente a terra, mas geralmente predominam cascas de árvores, areia, vermiculita, perlita, musgo sphagnum, dentre outros materiais. 


Orquídea Phragmipedium Sedenii
Phragmipedium Sedenii

Passando para uma orquídea de cultivo mais simples, temos a famosa orquídea bambu, Arundina graminifolia. Esta é uma planta que pode ser cultivada diretamente na terra, sem problema algum. É a típica orquídea de jardim, bastante utilizada no paisagismo. Aprecia sol pleno e solo rico em matéria orgânica. Quando mantida em apartamento, precisa estar em uma varanda bem iluminada. Ainda assim, tem a tendência a se inclinar na direção do sol, hábito que resulta em caules tortuosos. 

Quando bem desenvolvida, mesmo em vasos, a orquídea bambu propicia um espetáculo de floração, que atinge seu auge durante o verão, com graciosas flores imponentes no ápice de longos caules que lembram o bambu. Embora durem apenas dois ou três dias, as flores surgem de maneira sequencial, mantendo a haste florida por meses.


Orquídea Arundina graminifolia
Arundina graminifolia

Uma orquídea terrestre que costumamos encontrar com frequência nas floriculturas é o Cymbidium, geralmente híbrido. Este é um exemplo de orquídea bastante popular, mas que raramente nos remete ao mundo das plantas de chão. Plantado em vasos altos, envoltos por laços e celofane, o Cymbidium nem parece ser aquela orquídea resistente, que pode ser cultivada diretamente no chão do jardim, sob sol pleno. Sua única exigência é quanto ao clima, que não pode ser muito quente. Aqui em São Paulo, capital, ele ainda costuma florescer bem, durante o inverno.


Orquídea Cymbidium híbrida
Cymbidium híbrido

Para quem dispõe de bastante espaço, sol em abundância e clima mais quente, inclusive ao nível do mar, e procura uma orquídea terrestre, o Epidendrum fulgens e seus inúmeros híbridos são companheiros ideais. Esta é uma planta que pode ser encontrada na natureza vegetando como epífita ou terrestre, dependendo da região. No entanto, é mais conhecida no litoral como orquídea da praia. Suas raízes toleram o solo arenoso, a salinidade e a maresia. Existem híbridos belíssimos de Epidendrum, com as mais diferentes colorações. Ultimamente, têm surgido no mercado variedades compactas, ideais para quem vive em apartamento.


Orquídea Epidendrum fulgens
Epidendrum fulgens

Neste especial sobre as orquídeas terrestres, não poderia deixar de mencionar a famosa orquídea joia, Ludisia discolor. Esta é a planta que atrai a atenção de todos mesmo quando não está florida, graças ao aspecto rico e aveludado de suas folhas cobreadas, com veios avermelhados. Esta é uma orquídea que não necessita de muita luminosidade para florescer. Embora possa ser plantada diretamente na terra, preferencialmente rica em matéria orgânica, há quem utilize o substrato clássico para orquídeas, composto por casca de pinus, carvão vegetal e fibra de coco. Mistura deste substrato com terra também dá bons resultados. O importante é que o material seja bem drenado e não acumule umidade por muito tempo, já que os caules suculentos desta orquídea tendem a apodrecer com facilidade.


Orquídea Ludisia discolor
Ludisia discolor

Fechando o desfile das orquídeas terrestres que já passaram aqui pela sacada do apartamento, apresento a orquídea conhecida como flor do paraíso, Paradisanthus micranthus. Esta é uma orquídea não muito conhecida do público em geral, mas bastante interessante. Produz delicadas flores verdes ornamentadas com pequenos riscos acastanhados e um labelo branco. Parecem terem sido pintadas à mão.


Orquídea Paradisanthus micranthus
Paradisanthus micranthus

Infelizmente, aqui encerra-se a lista de orquídeas terrestres que já tive o prazer de cultivar. Tenho grande admiração por esta categoria de orquídeas, e tenho inclusive o desejo de colecioná-las. Certamente o faria, caso dispusesse de mais espaço. 

Apenas para mencionar mais algumas, temos a famosa orquídea grapete, Spathoglottis unguiculata, cujas flores exalam um perfume que lembra a uva ou o antigo refrigerante Grapette. Morro de curiosidade em relação a este aroma.

Outra orquídea terrestre bastante utilizada no paisagismo é o Phaius tankervilleae, popularmente conhecida como orquídea capuz de freira. Também dentre as comumente encontradas nos jardins brasileiros está a orquídea Sobralia macrantha. Temos uma bela touceira aqui na entrada do condomínio, ainda não tive a oportunidade de fotografá-la florida.

Uma planta que todos possuem por aqui é a Oeceoclades maculata, uma orquídea terrestre que não costuma ser mencionada nos círculos orquidófilos. Por fim, existe uma grande variedade de orquídeas europeias, como as dos gêneros OrchisOphrys, que se desenvolvem no solo e que, infelizmente, não se adaptam ao clima brasileiro.