Guia completo para cuidar de plantas dentro de casas e apartamentos

Sergio Oyama Junior

Dormideira ou Sensitiva - Mimosa pudica


Dormideira ou Sensitiva - Mimosa pudica
Mimosa pudica

Ainda que eu cultive várias plantas no quarto, esta Mimosa pudica, popularmente chamada de dormideira ou sensitiva, entre outros apelidos carinhosos, sempre chama a atenção dos visitantes. O próprio nome científico da planta já se parece com uma alcunha popular. A planta dormideira é um símbolo icônico da infância de muitas pessoas, mesmo aquelas que nasceram e cresceram em grandes centros urbanos. Era muito comum vermos grandes touceiras de sensitiva nas praças, canteiros e calçadas. Curiosamente, hoje em dia, tem sido mais difícil encontrar esta planta, ao menos nos locais que costumo frequentar.

Décadas atrás, na época em que cursava a faculdade de biologia, em Campinas, eu morava em uma pequena quitinete, que possuía a desejada característica de ser bem iluminada por duas grandes janelas, em faces opostas do recinto único. Sendo assim, eu costumava manter várias plantas no apartamento, já no milênio passado. Uma delas era um ramo de dormideira, que eu casualmente havia coletado de um canteiro na calçada. Por meses, esta muda viveu em um copo de plástico, com um pouco de água no fundo. Depois de muitas raízes terem se formado, tomei vergonha na cara e comprei um pouco de terra para a pobre sensitiva.

Pois esta Mimosa pudica viveu e cresceu lindamente, durante anos, em uma prateleira que nunca viu um único raio de sol. Toda a luz que a planta recebia era indireta, vinda das duas grandes aberturas do pequeno cômodo. Um belo dia, fui surpreendido por um pequeno pompom cor de rosa, saltando da famigerada folhagem que se fecha ao menor toque. Foi desta forma inusitada que conheci minha primeira planta de sombra, capaz de se desenvolver e florescer em um ambiente interno, na ausência de sol pleno.


Com o passar dos anos, ao longo das sucessivas mudanças de residências pelas quais atravessei, acabei perdendo a planta. Recentemente, resolvi resgatar esta bela lembrança do meu passado e saí em busca de uma nova muda de dormideira. Não a encontrei em lugar algum. Fiquei surpreso com o desaparecimento desta espécie outrora tão comum, que muitos consideravam mato. Um belo dia, meu pai descobriu que existe uma touceira de planta sensitiva bem na rua em que moramos, apinhada de prédios por todos os lados. Foi a partir das sementes que ele me trouxe que pude me reconectar com esta planta bela, delicada e geniosa.

Este episódio é interessante porque muitas pessoas me perguntam onde comprar a Mimosa pudica. Curiosamente, nunca vi mudas de dormideira à venda, em lojas especializadas ou garden centers. Também acho muito difícil, aqui no Brasil, encontrar sementes de sensitiva disponíveis para compra. Existem fornecedores em sites internacionais, mas é preciso ter em mente que nem sempre as sementes vendidas por estas pessoas são verdadeiras. Também existe a questão fitossanitária e o risco de trazer alguma doença exótica para o país. O mais seguro, no quesito comprar a planta dormideira, é procurar alguém que tenha uma muda estabelecida. A sensitiva produz sementes com bastante facilidade, que podem gerar novas plantas, em pouco tempo, no cultivo doméstico.

Dormideira ou Sensitiva - Mimosa pudica
Mimosa pudica

Ao contrário de muitas plantas ornamentais cultivadas em interiores, a dormideira germina facilmente, a partir de sementes. Durante o plantio, é bom tomar o cuidado de não enterrar as ditas cujas em grandes profundidades. Basta uma fina camada de terra, por cima das sementes, para que elas germinem. Também não é necessário fazer uma estufinha, para acelerar o processo. O interessante é que, ao passo que algumas germinam rapidamente, outras sementes de sensitiva podem demorar meses até que resolvam dar sinais de vida. Aqui no apartamento, já presenciamos o surgimento inesperado de mudas de Mimosa pudica, que literalmente brotaram do chão, em algum vaso aleatório, anos após o plantio original.

Outro método bastante tranquilo para multiplicar a planta dormideira é através do enraizamento de estacas. Como a planta é muito delicada, desidratando-se facilmente, o ideal é colocar os segmentos cortados em água, até que um número razoável de raízes tenha sido produzido. Depois disso, basta plantar as novas mudas na terra. Podar a sensitiva, no entanto, pode ser um pouco aflitivo. Além de fechar as folhas ao menor toque, a Mimosa pudica reage prontamente quando agredida. Após um corte, as folhas imediatamente se fecham. Como se isso não bastasse, elas se abaixam, simultaneamente e em grande velocidade, ficando paralelas ao caule.


Este comportamento da planta dormideira é um mecanismo engenhoso de defesa da espécie. O fenômeno recebe nomes complicados, tais como sismonastia, sismonastismo ou tigmonastia. Toda a movimentação almeja, justamente, assustar o predador que tenta comer a sensitiva. Através de estruturas complexas, denominadas bombas de cálcio e potássio, presentes nas células vegetais de uma estrutura chamada de pulvino, a Mimosa pudica consegue controlar a quantidade de água em seu interior. Em resposta a um estímulo mecânico, a dormideira elimina rapidamente a água das células localizadas nas bases dos folíolos de suas folhas compostas, que murcham e possibilitam seu fechamento. O interessante é que a planta não se fecha quando a movimentação é natural, como a ação do vento. Um sopro forte, no entanto, leva à reação da planta de se encolher. Parece que a sensitiva, conforme seu apelido já indica, percebe quando o estímulo é ameaçador à sua vida, reagindo prontamente. Este fenômeno é particularmente interessante porque a planta não possui um sistema nervoso central ou periférico.

Além de ser um mecanismo de defesa, o fechamento das folhas da dormideira também ocorre todos os dias, quando o sol se põe. Como não há luz, a planta não realizará fotossíntese, sendo desnecessária a exposição completa da superfície da folha ao ambiente. Desta forma, a sensitiva evita a perda de água por evaporação. É por este motivo que as folhas da dormideira também costumam se movimentar quando o sol muito forte incide sobre a planta. Em menor grau, esta movimentação das folhas também pode ser observada no trevo roxo, Oxalis triangularis atropurpurea, já apresentado aqui no blog.

É interessante notar que esta ação de abrir e fechar as folhas impõe um custo energético à planta sensitiva. Além disso, no período em que estão recolhidas, estas estruturas não são capazes de fazer fotossíntese, de forma eficiente. Por estas razões, embora seja divertido observar o encolhimento da planta frente aos estímulos mecânicos, é aconselhável evitar repetir o processo de forma exaustiva, para que a planta não se estresse.

Por incrível que pareça, a Mimosa pudica, dormideira ou sensitiva, pertence à mesma família de leguminosas como a ervilha ou o feijão, a Fabaceae. No exterior, esta planta é conhecida como sensitive plant ou touch me not, não me toque. Atualmente, a dormideira pode ser encontrada em todos os continentes, sendo uma planta tipicamente tropical. No entanto, sua origem está concentrada nos países das Américas do Sul e Central. Algumas culturas consideram a dormideira uma planta invasiva. 

Dormideira ou Sensitiva - Mimosa pudica
Mimosa pudica

Por outro lado, é grande a quantidade de pessoas que admiram esta planta, não só pelo comportamento curioso de suas folhas, mas também pela beleza e delicadeza de suas flores, em forma de pompons rosados. A floração da planta sensitiva costuma acontecer durante os meses do verão, estendendo-se até o início do outono. Estas estruturas costumam ser polinizadas com frequência, gerando uma grande quantidade de sementes viáveis.


É curioso notar, no entanto, que as mudas de Mimosa pudica originadas a partir de sementes costumam ser mais frágeis, apresentando os caules mais finos e compridos. Este fenômeno é visto com mais frequência quando a planta é cultivada em interiores, em ausência de vento. O balançar da planta estimula o engrossamento do caule, o que demora a ocorrer quando a planta dormideira é cultivada dentro de casas e apartamentos.

A sensitiva aprecia elevados níveis de umidade relativa do ar, em seu ambiente de cultivo. Isto não significa, no entanto, que ela deva ser regada com muita frequência. O solo encharcado é um dos fatores que ocasiona o apodrecimento das raízes. As regas devem ser moderadas, de modo que o solo seque levemente, entre uma irrigação e outra. Por outro lado, a falta de água pode levar a planta dormideira a se desidratar rapidamente. Um indício de que o solo está muito seco é o fechamento das folhas durante o dia, sem motivo aparente. Caso persista, a seca pode levar ao amarelamento das folhas, que secam e caem.

Embora pouco valorizada no Brasil, por ser considerada comum demais, a Mimosa pudica é bastante cultivada em países do hemisfério norte, como planta ornamental. Trata-se de uma excelente opção para interiores, já que não necessita de sol pleno para se desenvolver e florescer. Qualquer ambiente com luminosidade difusa e indireta é suficiente para o cultivo da planta dormideira. Na falta de luz, a sensitiva tende a ficar mais fina e comprida, estiolada, da mesma forma que acontece com as suculentas.

No mais, trata-se de uma planta bastante resistente, de fácil cultivo e crescimento vigoroso. Para mim, a  sensitiva é uma doce recordação dos tempos de infância. A Mimosa pudica é uma plantinha que, embora comum, costuma arrancar sorrisos de surpresa e admiração, até mesmo de adultos, diante de suas artimanhas motoras.