Guia completo para cultivar plantas dentro de casas e apartamentos

Sergio Oyama Junior

Aranto - Mãe de Milhares - Kalanchoe daigremontiana


Suculenta Kalanchoe daigremontiana
Kalanchoe daigremontiana

A planta suculenta conhecida popularmente como aranto, mãe de mil ou mãe de milhares talvez seja a de mais fácil cultivo, bem como a de mais rápida propagação. A Kalanchoe daigremontiana faz juz ao seu apelido, produzindo milhares de mudas à velocidade da luz. Enquanto alguns consideram esta suculenta uma verdadeira praga, muitos a reverenciam por suas alegadas propriedades medicinais. É muito comum encontrarmos o nome aranto associado à cura do câncer, bem como de uma série de outras doenças. No final deste artigo, discutiremos alguns pontos importantes sobre esta alegação, à luz de estudos científicos.

O gênero Kalanchoe, pertencente à família Crassulaceae, é originário de regiões tropicais do continente africano, sendo bastante comum na ilha de Madagascar. Diversas espécies são conhecidas por seu uso como plantas ornamentais. É o caso da Kalanchoe blossfeldiana, a popular flor da fortuna. Quanto falamos em Kalanchoe, esta é a primeira planta que nos vem à mente. Também é derivada desta espécie a variedade Calandiva, que apresenta flores com um número maior de pétalas. Outra suculenta bastante famosa, pertencente ao mesmo gênero do aranto, é a Kalanchoe tomentosa, conhecida por seu apelido carinhoso, suculenta orelha de gato. E, por falar em orelhas, temos a Kalanchoe thyrsiflora, que também atende pela alcunha de suculenta orelha de elefante.

O aranto ou mãe de milhares, por sua vez, pertence à espécie Kalanchoe daigremontiana. Trata-se de uma planta suculenta bastante comum nas coleções, devido à sua resistência e facilidade de cultivo. No entanto, como se multiplica muito rapidamente, pode se tornar um problema, graças a este perfil invasivo. Com o tempo, pode ser difícil controlar sua propagação nos vasos, canteiros e jardins. Como o próprio nome denuncia, o aranto possui a capacidade de gerar novos brotos ao longo de todas as bordas de suas folhas. Estas plântulas se destacam com muita facilidade, gerando novos indivíduos ao caírem no solo.

Suculenta Kalanchoe daigremontiana
Kalanchoe daigremontiana

Apesar deste inconveniente, é inegável o efeito ornamental e curioso das folhas bordadas por inúmeros brotinhos. Muito frequentemente, eles já começam a lançar raízes, ainda aderidos à planta mãe. Neste mesmo gênero do aranto, ainda existe outra espécie, Kalanchoe delagoensis, que também possui esta característica de produzir brotos nas bordas das folhas. Ela também é conhecida como mãe de mil ou mãe de milhares. No entanto, suas folhas são muito mais estreitas e compridas, trata-se de uma espécie diferente do aranto, quanto à aparência. É chamada no exterior de chandelier plant, ou planta candelabro.

A suculenta aranto ou mãe de milhares é pouco exigente quanto às condições de cultivo. Ela é bastante resistente e multiplica-se com rapidez, em qualquer tipo de solo ou vaso. Evidentemente, as condições ideais são as mesmas aplicadas a todas as suculentas. Um vaso com boa drenagem e um substrato arenoso, composto por terra vegetal e areia grossa em partes iguais, proporcionará um bom desenvolvimento ao aranto. O vaso pode ser de plástico ou barro, lembrando que este último permitirá uma secagem mais rápida do substrato. Em ambos os casos, o ideal é evitar o pratinho sob o vaso, para que a água não fique acumulada.

As regas devem ser espaçadas, de modo que o substrato seque bem no intervalo entre as irrigações.  Uma forma de acabar com o resistente aranto é deixá-lo com as raízes encharcadas por muito tempo. Quanto mais luminosidade a Kalanchoe daigremontiana receber, melhor será seu crescimento. Em ambientes internos, mais sombreados, pode ser até que os brotos nas bordas das folhas não apareçam. Além disso, o aranto tenderá a ficar mais estiolado nestas condições.

Não é necessário se preocupar muito com a adubação do aranto. De modo geral, qualquer formulação básica de manutenção, do tipo NPK, dará conta do recado. Alternativamente, adubos orgânicos podem ser aplicados ao substrato. No entanto, é bom lembrarmos que a planta está acostumada a solos com poucos nutrientes, em seu habitat de origem.

Mais detalhes e informações sobre o cultivo de plantas suculentas, em geral, podem ser encontrados no artigo abaixo:




A propagação da mãe de milhares é bastante óbvia. Ao contrário do que acontece com outras suculentas, que precisam de um berçário específico para que suas folhas produzam novos brotos, o aranto irá se multiplicar independentemente de qualquer cuidado que tenhamos, até mesmo contra a nossa vontade.

Embora exista alguma divergência quanto ao fato de o aranto ser uma planta ornamental ou uma praga, a controvérsia maior refere-se às suas alegadas propriedades medicinais. Diferentes espécies do gênero Kalanchoe vêm sendo utilizadas na medicina popular de várias culturas. Extratos destas plantas suculentas costumam ser ministrados aos pacientes para tratar os sintomas de uma série de afecções, tais como hipertensão, reumatismo, inflamações e infecções. 

É muito importante, no entanto, conhecer a fundo os compostos químicos presentes nas plantas, bem como suas exatas identificações. Muitos acreditam que, por ser natural, o remédio é seguro. Trata-se de um mito, já que muitas plantas possuem componentes tóxicos e podem comprometer a saúde de humanos e animais. Inclusive dentro do gênero Kalanchoe, que é o mesmo do aranto, existem casos de plantas com compostos capazes de causar envenenamento em seres humanos. É o caso do aveloz, nome popular dado à Euphorbia tirucalli. Muito embora seja considerada uma planta medicinal, sua seiva láctea é extremamente tóxica.



Sabe-se todas as partes das plantas pertencentes ao gênero Kalanchoe são ricas em glicosídeos cardíacos. Estas substâncias podem causar toxicidade em pequenos animais, se ingeridos acidentalmente. As flores e botões florais são as estruturas que contém níveis mais elevados destes compostos tóxicos.

A espécie Kalanchoe daigremontiana, por exemplo, é rica em uma substância química chamada daigremontianin, que pertence a uma classe de ativos denominados bufadienolides. Experimentos científicos realizados com camundongos provaram que este composto é tóxico. Trata-se de um glicosídeo que age no coração, causando um envenenamento cardíaco. Há relatos de animais afetados por este composto tóxico, na África do Sul, onde o aranto ocorre em abundância, na natureza.

É justamente devido a este efeito tóxico que muitos correlacionam o aranto ao tratamento do câncer. Em teoria, a citotoxicidade da daigremontianina também seria efetiva para matar as células tumorais. No entanto, como vimos acima, o uso indiscriminado da substância pode levar a um envenenamento. Neste contexto, ainda são necessários muitos estudos científicos, com células in vitro, e com diferentes modelos animais, até que se chegue a uma conclusão concreta e segura quanto ao uso medicinal do aranto. Até o momento, não existem evidências científicas de que as substâncias presentes no extrato desta suculenta possam atuar na cura do câncer.