Entrevista com Maria Rita Cabral


Micro-orquídea Christensonella subulata
Christensonella subulata

Nossa entrevistada de hoje é uma pessoa singular com múltiplas facetas, característica tão inerente às mulheres. Médica não atuante, mãe, avó e orquidófila do Rio de Janeiro, Maria Rita Cabral é hoje uma referência para a orquidofilia brasileira, principalmente no tocante às microorquídeas e botânicas. Deixando um pouco de lado seus afazeres, Maria Rita prontamente dedicou seu tempo para nos falar sobre o cultivo de suas orquídeas em Paty do Alferes, região serrana do Rio.

O.A. Acompanho há bastante tempo sua participação em listas de discussão, palestras e reuniões sobre orquidofilia. Como começou seu interesse pelo assunto? Há quanto tempo cultiva orquídeas?

M.R.C. Comecei a cultivar há quase 10 anos, quando meus filhos já estavam casados e eu tive mais tempo para estudar. Sempre gostei imensamente de plantas, minha casa de campo de 30 anos já estava bem florida, mas faltava-me tempo para a orquidofilia. Comprei algumas, após ler um pouco, ver o que poderia ser cultivado em casa, pelas condições de altitude, temperatura. Minha primeira ajuda neste estudo foi Delfina de Araújo, um luxo. Depois, tive a felicidade de conhecer Americo Docha, a quem agradeço também o grande aprendizado, Dalton Holland, Luiz Filipe Varella, Luiz Menini Neto, sem ordem de preferência, Keller e muitos outros de nossas listas. 

No momento, dedico-me quase 80% a microorquideas e botânicas, que me conquistaram por inteiro. As listas são um meio muito importante de enriquecimento de conhecimento. Não posso citar os listeiros, pois me estenderia por páginas, todos me ajudaram a crescer.

Maria Rita Cabral
Maria Rita Cabral

O.A. Gostaria que nos contasse um pouco sobre sua paixão por microorquídeas e seu cultivo na natureza, em árvores. Quais os adubos e defensivos utilizados?

M.R.C. As micros começaram a aparecer com as botânicas. Primeiro Maxillaria e seus gêneros derivados, pois era difícil encontrar as pequeninas. Depois foram aparecendo para venda, havia pessoas que brincavam comigo, como o saudoso Geraldo Pato: Laelia virens, só você gosta disto. Mesmo não sendo micro, é um exemplo de que cultivo coisas que não são muito procuradas, ou pelo menos não eram. Hoje, o Colibri tem muita coisa em micro e outros orquidários comerciais igualmente.

Meu marido temia que eu fizesse estufas no nosso jardim e dizia: "Não me agrada". Fui então vendo a opção de colocar tudo em árvores (que ficaram insuficientes...), sob elas penduradas, nos troncos delas. Ao ficarem lotadas, fiz bancadas em madeira e grade para não juntar lesmas (que ainda assim sobem pela madeira), construídas entre 2 árvores. Fiz 3 delas, uma debaixo da mangueira, octogonal, 3 prateleiras. Duas entre as nespereiras e a amoreira. Também fiquei sem espaço rapidinho. Resolvi fazer 3 telados (1, esgotado, o segundo, esgotado, o terceiro) com 4 paus de massaranduba e um sombrite 50% em cima, sob o telado, bancadas formando um U, ou seja, frente livre e 3 lados com bancadas. Aí comprei as Stanhopea (coleção de ex colecionador), coloquei tela de arame galvanizado sob estes sombrites e pendurei vasos neles. 

As que podem ser cultivadas ao tempo, fui arranjando raízes pelos campos, invertia as mesmas, formando meus troncos cheios de galhos (o que era tronco foi para a terra, o que era raiz virou galhos). Espalhei 20 grandes troncos nas ladeiras do terreno.

Fiz duas treliças, nas quais coloquei sombrite por dentro, pendurando aí as do escurinho. Na parte externa da treliça, as que podem estar ao sol. As terrestres do sol ficam com cactos, como Sobralia e Cyrtopodium. As treliças protegem as que não podem ficar ao sol, no inverno, pois o sol passa lateralmente e algumas árvores de regime caduco perdem as folhas. No verão, o sol passa por cima do orquidário mas as folhas filtram.

Coloquei sob as árvores também carros de boi, carros de bode, tocos menores, fui enchendo de mudas. Também 'copiei' a Florabela e fiz uma fileira de Dracena. Fiz também um 'varal', usando um telado de 1 m de largura e uns 5 de comprimento, sob as árvores, paus em massaranduba ao longo, esquadrias em massaranduba com vergalhão na horizontal, por cima, cobertos pelas telas onde vou pendurando toquinhos de micro, nó de pinho, casca de perobas, com as pequenas só.

Adubo, tenho usado do B&G, semanal. Defensivos, procuro evitar. Preventivamente, uso o Inseticida Rural e Piretróides em geral.

O.A. Quais são os gêneros mais presentes em sua coleção? Existe algum híbrido?

M.R.C. Tenho Maxillaria e seus novos gêneros, Oncidium, Pleurothallis e seus novos gêneros, Epidendrum, Rodriguezia. Tenho cultivado os Pleurothallis (e novos gêneros) do Equador com muito sucesso. Não posso me esquecer de Stanhopea, Gongora, Coelogyne, algumas Cattleya. Stelis, Octomeria, Bifrenaria. Tenho um pouco de tudo, em se tratando de espécies.

Não tenho muitos híbridos, troquei-os por espécies com uma amiga. Porém o Jorge do Itaorchids tem alguns que me cativam e então os compro.

O.A. Em quais aspectos do cultivo o iniciante deve prestar mais atenção? A manutenção de microorquídeas tem alguma peculiaridade?

M.R.C. Acho que o inciante deve ver primeiro sua condição de cultivar esta ou aquela orquídea no local que tem para cultivar. Ler sobre necessidade das espécies ou híbridos quanto à iluminação, calor, altitude. 

Microorquídeas sempre precisarão de uma umidade muito maior do que as que tem pseudobulbo para manter reservas, por isto a umidade local é importantíssima. Costumo manter bromélias ao redor, samambaias, molhar a grama quando há seca maior. No meu canto há grande diferença entre dia e noite, importante para elas, estes truques para manter umidade. Por vezes, junto vasos sobre pratos com pedrinhas, que também têm areia, e mantenho molhadas. Vou adaptando aqui e ali quando noto que estão precisando de mais ou menos umidade.

O.A. Quanto do seu tempo cotidiano a orquidofilia ocupa? O que a mantém motivada?

M.R.C. Motivada pela beleza, pela necessidade de estudar para me manter atualizada e com isto o "alemão" não corre atrás,  pelo prazer de estar com elas observando suas necessidades, suas respostas aos truques que vou tentando para mantê-las bem.

O tempo depende do que minha família, primeira opção em minha vida, ocupa. Tenho um caseiro muito bom comigo, que gosta muito do cultivo delas e tenta mantê-las sempre como eu gostaria. Isto me ajuda muito quando não consigo ir ao orquidário. Estudo aqui em casa, onde tenho os livros mais modernos, mais atuais. Os mais clássicos os deixo no orquidário e tento pesquisar por lá.

Uso muito os sites do Orchidstudium, Orquideas do Rio Grande do Sul, Delfina de Araujo, Orchidspecies nas dúvidas ao tentar nomear plantas, entender o porque de uma reação delas. O site do Colibri também ajuda no que diz respeito às necessidades das plantas que vendem.

O.A. Maria Rita, muito obrigado pela belíssima entrevista. Fiquei emocionado com a sua presteza e consideração ao transmitir experiência e conhecimento de forma tão rica e detalhada.