Entrevista com Carol Costa


Carol Costa na ExpoFlora
Carol Costa na ExpoFlora

Jornalista, paisagista, orquidófila, colunista, apresentadora... Multitarefa, Carol Costa ainda consegue ser esposa e mãe de 148 orquídeas e 4 gatos. Nesta entrevista exclusiva, ela nos conta um pouco sobre suas múltiplas atividades, gostos e talentos.

O.A. Como se deu o início da sua relação com as plantas?

C.C. Como acontece com muitas pessoas, minhas primeiras experiências com plantas foram brincar no quintal das minhas avós e, anos depois, na casa da minha mãe. É curioso como esse gosto pela natureza costuma ser estimulado nas crianças pelos pais e avós, já reparou? Meu avô materno era pescador e caçador (juro!), morava num ranchinho na beira do rio Piracicaba. Lembro de ficar trepada nas amoreiras da frente da casa dele me esbaldando com meus primos, a gente descia roxos das árvores depois de nossas mães ralharem muito que a fruta manchava a roupa. 

Numa das últimas vezes em que visitamos meu avô, antes de ele falecer, minha mãe trouxe para casa um pé de amora e outro de limão que ele preparou a muda. Essas duas árvores acompanharam toda a minha adolescência, ficavam no quintal da casa da minha mãe. É como se nós três nos fizéssemos companhia, porque, nessa época, meu irmão temporão nasceu e eu fui morar no quarto que ficava na edícula – para chegar até ele, tinha de atravessar um pequeno trecho gramado sob a guarda das duas arvoretas. Na safra, minha mãe colhia amoras e preparava geleia em casa, era uma delícia. Do limoeiro não me lembro de ter comido frutos, ele demorou a desenvolver e, suspeito, acabamos saindo daquela casa antes de vê-lo frutificar. 

Também gostava de acompanhar processos (sempre tive um gosto pelos experimentos científicos), então, era uma grande descoberta saber como brotavam os feijões que eu colocava no algodão, os caroços de laranja que jogava no quintal, o chuchu que precisava de um companheiro para trepar no muro, outras sementinhas assim. Eu era escoteira, tinha um enorme apego à natureza. Dos 10 aos 15 anos, vivia aquela rotina de escola e lição de casa que acaba afastando a gente de pequenos prazeres e nunca me responsabilizei pelas plantas do jardim da minha mãe. Só depois de adulta, quando vim morar em São Paulo sozinha, é que quis ter as "minhas plantas" e, aí, sim, comecei um aprendizado cheio de erros e alguns poucos (e comemorados) acertos.

O.A. As orquídeas são as suas preferidas?

C.C. Não, dá pra acreditar? Minhas flores preferidas são as alstroemerias, que, a despeito do nome feio, são lindas, duráveis e comuns. Gosto da beleza dessas coisas simples e comuns, como os pardais e o bolo de fubá, sabe? As orquídeas são as plantas a quem eu mais devo meu aprendizado, porque só depois de matar muitas delas é que tomei coragem de fazer um curso, depois outro, comprar livro, pesquisar em sites e, finalmente, parar de matar as coitadinhas. Devo muito a essas plantas. 


Carol Costa e a Pitangueira
Carol Costa e a Pitangueira

O.A. Quais são os gêneros e espécies que têm um lugar especial no seu jardim suspenso?

C.C. Amo as micro orquídeas e tenho muitas no meu apê. São fáceis de cuidar, não ocupam muito espaço, ficam lindas em terrários fechados e costumam dar muitas flores. Algumas são tão queridas que compro repetidas, para juntar nos vasos criando umas lindas touceirinhas, como aconteceu recentemente com o Mediocalcar decoratum e o Epidendrum porpax. Tenho uma Acianthera microphylla gracinha, estou apaixonada pelos "homenzinhos de paraquedas" da Lockhartia oestedii. Tem a Juju, uma Chytroglossa aurata que me fez muita companhia quando eu trabalhava na Abril.

Comprei no começo do ano um Epigeneium nakahara e um Dendrobium rigidum que estão sendo bem mimados por aqui. Também adoro a flor da Eria langbianensis, acho um charme ela ser peludinha por fora e toda estriada de vermelho dentro. Ah, e tem ainda a Robiquetia cerina, que é uma COISA de fofa! Meu desgosto é ter procurado uma Ionopsis utricularioides por tantos anos e ela até agora não ter se adaptado bem em casa… Aquela mal agradecida, hunft!

O.A. Por que você criou o Minhas Plantas?

C.C. Porque estava sacaneando demais os leitores do Guindaste com textos sobre jardinagem. Veja bem, o Guindaste tinha sido criado em 2006 como um blog de crônicas sobre assuntos diversos. Quando fui convidada a integrar o time de colaboradores do EcoBlogs, o Guindaste começou a ficar cheio de textos de sustentabilidade. Eram crônicas, sim, mas só de plantas, de natureza, de ecologia. Ao mesmo tempo que os leitores da velha guarda estavam ficando de saco cheio, eu ainda tinha de explicar por que raios um blog de plantas chamava Guindaste. 

A ideia inicial era abrir um outro blog só pra colocar os textos de plantas, mas quando eu fui rascunhando o projeto, vi que não tinha mais perfil de blog, já era um portal, mesmo. Paralelamente a isso, os vídeos toscos e caseiros que eu colocava no YouTube começaram a ganhar audiência. Pensei: "E se fizéssemos um portal pra juntar tudo, vídeo, podcast, ficha de planta, crônica fofa, plantão de dúvidas, eventos na área?". Deu no que deu. Se eu soubesse a encrenca em que estava me metendo, teria mudado o nome do Guindaste pra, sei lá, "Cortador de Grama" e estava tudo certo. Mas não, a pessoa quer sarna pra se coçar...

O.A. Escrever matérias, gerenciar o site, falar na rádio. Entre tantas atividades, sobra tempo para as orquídeas? Conte-nos um pouco sobre a sua rotina diária.

C.C. Taí uma boa pergunta! Minha rotina não é bem aquela coisa de orquidófilo que se imagina, não: eu passo entre 10 e 12 horas sentada na frente do computador, com um monte de livros abertos, celular e telefone ligados, trocando e-mails e respondendo perguntas nas redes sociais. Estamos recebendo uma média de 20 perguntas de leitores e ouvintes por dia e esse número só aumenta.

Ah, pode esquecer aquela coisa de levantar cedinho para adubar as plantas – eu odeio acordar cedo, saio arrastada da cama quando tenho de visitar um produtor. Mas também não ache que eu sou uma nerd em tempo integral: eu também passo muito tempo na rua, fazendo cursos, conhecendo um produtor de vasos bacana, um blogueiro especial que valha a pena trazer pro time, fazendo reuniões com patrocinadores, gravando os vídeos ou simplesmente passeando num lugar bonito para tirar fotos para o site – a maioria das imagens publicadas no Minhas Plantas foi feita por mim e, hoje, temos um banco com mais de 4 mil fotos exclusivas, muitas de orquídeas.

Rego as orquídeas diariamente, porque moro num apartamento face Norte, que pega sol o dia todo e onde venta muito. Minha varanda tem sombrite apenas nas grades e mais para barrar o vento, porque acho esse material útil, mas muito feio pra fachada do prédio – ainda bem que as russélias escondem. Tenho plantas em todos os cômodos, inclusive no quarto: no meu criado-mudo ficam duas violetas, um Mediocalcar e uma Chytroglossa, além de uma Phalaenopsis (a que estiver florida na vez) e meu fiel companheiro Ernesto, o pacová.


Micro-orquídea Mediocalcar decoratum
Mediocalcar decoratum

O.A. Quais são os principais cuidados que uma pessoa deve ter para cultivar orquídeas em apartamento?

C.C. Se eu pudesse resumir em uma única dica, seria escolher o local antes de escolher a planta. E isso serve para qualquer planta, não só para orquídeas. Quando se tem uma ideia de como é o microclima no local onde você pretende colocar o vaso, as chances de acertar na escolha da planta são muito maiores do que fazer o inverso, levar a planta e depois escolher onde colocá-la.

Muitos ouvintes da Rádio Globo SP me escrevem pedindo dicas para salvar uma determinada planta – na maioria dos casos, ela adoeceu porque estava sendo cultivada num lugar errado. Acontece direto de a pessoa colocar uma orquídea num local muito sombreado e a planta ir minguando até morrer. O pior é que o vendedor ensina errado já na floricultura, fala "Ih, orquídea não gosta de sol nem de água", aí, é claro que a pessoa vai colocar a planta no meio da mesa da sala, longe das janelas, dentro de um cachepô chique e molhar uma vez por semana, com meio copinho de água. A planta vai morrendo e a pessoa passa a regar menos ainda. Aí, quando a bichinha "vai a óbito" de vez, ouço o dono da casa comentar que tem "dedo podre". Morro de tristeza com isso.

Orquídeas podem ser cultivadas em qualquer tipo de casa, apartamento ou escritório – algumas espécies vão muito bem mesmo sob o ar condicionado –, mas tenha em mente o local em que ela ficará e pesquise bastante antes de levar uma para casa. Há orquídeas que amam sol forte, outras que adoram uma sombrinha fresca. A menos que o lugar escolhido seja tão escuro que você precise acender a luz para ler um livro, planta não vai faltar.

O.A. Berenice, Mimosa, Eustáquio. Quais são as suas plantas que têm o privilégio de serem chamadas pelo nome?

C.C. Ih, tem um monte de plantas com nome por aqui. A Berenice é a Phalaenopsis pintadinha que morava na redação do Guia Quatro Rodas enquanto trabalhei na Editora Abril. Ela e a Juju, a Chytroglossa aurata, eram minhas colegas de mesa. Uma amiga de outro andar se apaixonou pela Juju e comprei uma pra ela – aliás, isso acontece direto, de uma pessoa gostar de plantas numa empresa e, aos poucos, ir espalhando o verde pelas mesas alheias.

Tenho a Brigite, uma Phalaenopsis schilleriana com as folhas mais lindas que já vi, que comprei no Rio de Janeiro. A Mimosa é minha jabuticabeira de vaso, está monstra e, hoje, abriga várias orquídeas nela. O Eustáquio – ou Ták, para os íntimos – é meu "planto-carnívoro", vive no meio das orquídeas numa boa. Tem o Ernesto, o pacová do meu quarto, e a Angelina, uma Brassolaeliocattleya que dá flores tão grandes quanto os lábios da mulher do Brad Pitt.

E ontem o Mediocalcar decoratum foi batizado de Ivo Pitanguynha. E eu tenho uma porção de nomes que gostaria de usar, que ficam na listinha, mas não apareceu nenhuma planta com cara de Otacílio ou Ariovaldo por aqui. Escolher nome é uma tarefa demorada, você precisa pegar a personalidade daquela planta. Não é ir colocando aleatoriamente, não. E ela tem de ser especial, senão, vai ficar com o latim e o grego que tá bom demais.

O.A. Vocês podem conhecer melhor o trabalho da Carol visitando o portal Minhas Plantas

Além de talentosa, a Carol é bastante modesta, tendo recusado algumas vezes dar esta entrevista por não se achar à altura dos demais entrevistados. Au contraire, ma chérie! Fazendo parte de um seleto time de profissionais influentes e conhecidos por sua luta pela divulgação do conhecimento sobre as plantas, Carol tem como marca registrada a generosidade com que trata cada um de seus milhares de leitores e ouvintes. 

À Carol Costa, meu muito obrigado pela gentileza e carinho em conceder esta belíssima entrevista!