Mãe de orquidófilo sofre


Orquídea Oncidium ornithorhynchum
Oncidium ornithorhynchum

Quando eu era criança, tinha paixão por criar bichos. Tive um pequeno peixe chamado Rodolfo, um lebiste selvagem mantido em uma pequena tigela de água. Este foi o início de uma febre que resultou em cinco aquários, repletos dos mais variados peixes. Em casa, já tivemos pássaros, coelhos, tartarugas, uma daschund chamada Samanta... Eu também costumava plantar tudo o que via pela frente. Já tive pés de abacate, laranja, limão, flamboyant, caliandra, todos raquíticos, nascidos a partir de sementes. Morávamos em um sobrado, na época.

Em todos estes casos, o trabalho maior sempre sobrava para a minha mãe que, a princípio, não tinha nada a ver com a história. Era ela quem acabava dando banho no cachorro, lavando o quintal várias vezes ao dia, limpando a gaiola dos coelhos, e por aí em diante. Um trabalho invisível, sem fim, como todos os outros afazeres domésticos, aos quais poucos dão o devido valor, ainda nos dias de hoje.

Com as orquídeas, no apartamento, não foi diferente. O espaço reduzido e a falta de recursos apropriados acabam gerando mais sujeira e dando mais trabalho. Um simples borrifar de adubo ou inseticida à base de óleo de neem, por exemplo, é capaz de arruinar a aparência das paredes e dos vidros das janelas. O vai e vem do pulverizador de água, entre regas e recargas, a despeito de todo o cuidado, acaba causando rastros e pegadas molhadas pelo apartamento. A sacada está constantemente imunda, resultado do acúmulo de folhas secas, manchas de adubo e outras sujeiras que sabe-se lá de onde surgem.

Como se não bastasse toda esta trabalheira, ocorre que ainda roubo as orquídeas que minha mãe ganha. Ela tem várias, presentes vindos de diferentes pessoas, em diversas ocasiões especiais. Mas depois da floração, todas acabam sendo sugadas pelo buraco negro da nossa varanda, onde acabo acomodando as minhas orquídeas e as dela. Metade da sacada, por sinal, já foi da minha mãe. O espaço era destinado às plantas 'não orquídeas' de estimação, que ela cultiva há décadas. Até isso foi perdido para o orquidófilo maluco, que acabou preenchendo tudo com suas plantinhas especiais.

Quando comecei esta pequena brincadeira com as orquídeas, ninguém poderia imaginar que chegasse aonde chegou, que daria certo. Pois desde o princípio, tive o apoio incondicional da minha mãe, juntamente com o de toda a família. Considero-me abençoado por ter esta fortaleza a me amparar, até os dias de hoje. Independentemente de quão malucos ou trabalhosos sejam os meus planos, ela sempre os apoiou. Muitos projetos fracassaram, mas se este com as orquídeas tem dado certo, é graças ao suporte e encorajamento que recebo da Rainha do Apê, a quem agradeço de coração e a quem dedico todo o sucesso das Orquídeas no Apê, cultivadas sob os seus domínios, com sua condescendência e abnegação.

A todas as mães, de orquidófilos ou não, dedico esta pequena orquídea que costuma surgir no Dia delas, o Oncidium ornithorhynchum, que tecnicamente chama-se Oncidium sotoanum, mas ninguém se lembra disso. Parabéns por este dia especial!