Como cultivar orquídeas na crise


Micro-orquídea Ornithophora radicans
Ornithophora radicans

Infelizmente, não é necessário escrever um tratado para constatarmos a pujança da crise na qual estamos mergulhados. Em todos os setores da vida cotidiana, notamos os efeitos devastadores desta tragédia econômica, fruto de um país paralisado. Aqui mesmo, no blog, observo nitidamente uma queda drástica nos rendimentos, que já eram reduzidos, e agora tornaram-se ridículos.

Mas vamos falar de coisas positivas. O que podemos fazer, em relação à nossa paixão pelas orquídeas, frente a este cenário? Muita coisa. Afinal, não é à toa que somos conhecidos como os loucos das orquídeas. Acredito até que este setor tenha sido menos atingido, embora eu não possa afirmar com propriedade, já que não as comercializo. Mas dou a seguir três dicas básicas que, acredito, possam ser úteis em situações como esta.

1. Querer menos orquídeas


Esta é uma dica que pode parecer óbvia e até mesmo irritante, mas é fato que as pessoas tornam-se mais felizes quando almejam possuir menos bens materiais. Com a chegada das tecnologias de compartilhamento, por exemplo, não é mais necessário ter para ser feliz. Neste contexto, ter 30 orquídeas a mais vai melhorar minha qualidade de vida em qual aspecto? O mais provável é que piore, já que terei menos dinheiro, mais trabalho e mais despesas para cuidar de uma coleção maior.

Existem estudos que mostram que a compra de um novo bem causa uma alegria que é bastante passageira. Como consumidor compulsivo sob controle, sei bem disso. Já comprei coisas que acabei doando, sem ao menos abrir a embalagem. Ao contrário, experiências causam sentimentos de felicidade que resistem ao tempo. Uma viagem, uma comemoração ou uma simples conversa com amigos, por exemplo, são bens intangíveis que causam um registro positivo e permanente em nossas memórias.

Já comentei aqui que meu sonho sempre foi lotar a varanda de orquídeas. Gostaria de ter 100 exemplares, pelo menos. Com o passar do tempo, vendo a trabalheira insana que é cuidar de 70 plantas, assistindo à morte de várias orquídeas ingratas, adquiridas a peso de ouro, acabei entendendo que este era um objetivo tolo. De cada uma das plantas que passaram por aqui, vivas ou mortas, tenho um registro fotográfico, que foi compartilhado, visto e apreciado por milhares de pessoas. Este carinho e reconhecimento, sim, enchem meu coração de alegria.

2. Trocar orquídeas


Aquela velha prática de trocar mudas de plantas com a vizinha continua sendo extremamente benéfica, tanto à nossa vida pessoal como financeira. Confesso que ganho muito mais orquídeas do que doo. Até porque minha coleção é pequena e raramente tenho mudas sobressalentes. Mas acho admirável que ainda haja pessoas generosas, amigos e familiares, que se dispõem a gastar um pouco de tempo e dinheiro apenas para presentear outra pessoa com uma orquídea. É uma lembrança que fica para sempre e perpassa a existência da própria planta.

Com o advento da tecnologia e da facilidade de interação que as redes sociais nos proporcionam, é cada vez mais fácil trocar orquídeas com pessoas de todos os lugares. Infelizmente, existem os riscos inerentes a esta atividade, já que muitas vezes não sabemos com quem estamos lidando. Dificilmente tomaríamos um calote de orquídeas da vizinha ou do cunhado.

Neste contexto, é particularmente interessante trocar mudas daquelas orquídeas que costumam soltar keikis, aquelas brotações laterais que são capazes de florescer mais rapidamente, quando comparadas às mudas oriundas de sementes. Dendrobium, Epidendrum e, eventualmente, Phalaenopsis, são exemplos de orquídeas que podem nos presentear com keikis.

3. Comprar orquídeas baratas


Durante a Era Vitoriana, possuir orquídeas era sinônimo de riqueza e exclusividade. Hoje, com as modernas técnicas de propagação, estas plantas especiais estão cada vez mais acessíveis. Já é possível encontrar orquídeas na feira e no supermercado. Ainda assim, existem aquelas espécies e variedades circunscritas a um seleto feudo. Cobiçá-las pode ser motivo de frustração.

Algumas orquídeas, no entanto, costumam ser vendidas a preços mais amigos. O Dendrobium loddigesii é um exemplo de orquídea que considero belíssima e que sempre vejo sendo comercializada por valores módicos. Várias micro-orquídeas, como a Ornithophora radicans, por possuírem flores pequenas e de menor apelo comercial, também podem ser encontradas por bons preços. A lista é imensa e vale a pena sair procurando por estas pequenas pechinchas orquidófilas.

Outro caso clássico é o dos híbridos mais populares, que estão na moda, e são produzidos aos borbotões. Procurando bem, já é possível encontrar mini Phalaenopsis das mais diferentes cores e padrões por valores camaradas. Híbridos de Miltoniopsis, orquídea popularmente conhecida como Miltonia colombiana, e as várias versões do mini Dendrobium Stardust, também são exemplos de plantas de grande apelo popular e de fácil acesso.

Por fim, existe o velho truque de comprar orquídeas fora da época de floração. Existem lojistas que reservam uma bancada para plantas já sem flores, vendidas com um bom desconto. No entanto, é sempre bom comparar os valores em relação à orquídea florida, já que nem sempre estas ofertas são vantajosas. Para quem tem paciência, comprar mudas de orquídeas que florescerão em um ou dois anos também pode ser uma opção econômica para adicionar bons exemplares à coleção.