Uma orquídea fora de forma - e feliz


Mini-orquídea Laeliocattleya Pink Favourite
Laeliocattleya Pink Favourite

Todos os dias, somos bombardeados com mensagens, subliminares ou não, de que precisamos ser jovens, bonitos e magros para sermos felizes. De um simples comercial de margarina a um desfile da maison Dior em Paris, estamos sempre com a infeliz sensação de inconformidade. Aqueles dois quilos que sempre precisamos perder, a plástica no nariz, a lipoescultura, tudo sempre nos acenando com promessas de glamour e felicidade. 

No mundo das orquídeas, a realidade não é diferente. Durante séculos, os colecionadores vêm cruzando e selecionando os melhores exemplares para obter flores maiores, simétricas, belas e perfeitas. Cada pequeno detalhe conta valiosos pontos nos julgamentos das exposições, que por fim traduzem-se em cifras astronômicas para a elite das orquídeas. As feias, tortas ou defeituosas, ou são descartadas ou são amarradas nas árvores.

Confesso que eu mesmo já discriminei muita orquídea que floresceu por aqui, deixando de fotografá-las simplesmente porque não tinham a armação correta ou apresentavam pequenos defeitos nas pétalas. No afã de cultuar a beleza e perfeição técnica, deixei de registrar momentos únicos, de plantas especiais que deram um duro danado para sobreviver e florescer em condições não ideais.

Na contramão desta manada em prol da boa forma, vêm os japoneses com a estética Wabi-sabi, que aceita e valoriza o imperfeito, impermanente e incompleto. Bastante distante da percepção da maioria dos ocidentais, esta corrente estética encontra beleza nas coisas assimétricas e irregulares, remetendo-nos à simplicidade, economia e austeridade.

Neste contexto, trouxe hoje para vocês a imagem desta mini-orquídea magenta, a Laeliocattleya Pink Favourite. Como podem ver, ela não é jovem nem magra. Devido a uma polinização artificial, esta orquídea precisou abrir mão do viço e beleza de suas pétalas para gestar milhões de novas vidas, sementes microscópicas que se alojam na cápsula em formação. Quem ousaria dizer que esta orquídea, apesar de longe dos padrões ditados pela sociedade, não se encontra belíssima e muito feliz?