A saga das Orquídeas no Apê


Orquídea Laelia longipes
Laelia longipes

Tudo bem, Pessoal? Hoje, venho compartilhar algumas reflexões acerca do modus operandi deste humilde orquidófilo e suas consequências nas vidas das orquídeas que por aqui passam.

Após anos de cultivo, percebo um certo padrão no ciclo de vida das plantas que têm o infortúnio de cair em minhas mãos.

Aquelas orquídeas que compro pela internet costumam chegar detonadas. Imagine a criatura crescendo bela e feliz em uma estufa, com todas as regalias, em um ambiente de cultivo milimetricamente controlado. Subitamente, a coitada é arrancada do vaso, embrulhada em um pedaço de jornal, enfiada em uma caixa e passa dias sufocada, sendo jogada de um lado para o outro, nos correios.

Aqui no apartamento, estas plantas costumam levar anos em um processo de adaptação. Muito frequentemente, após uma lenta agonia, morrem sem sequer terem a chance de florescer.

As orquídeas que compro ou ganho pessoalmente, por outro lado, chegam exuberantes. Já adaptadas em seus vasos, muitas vezes floridas, mostram no viço de suas folhas e raízes o excelente tratamento a que foram submetidas.

Nestes casos, o padrão que costumo observar é outro. Estas orquídeas passam alguns anos saudáveis, florescendo uma ou duas vezes por ano, até que, por algum motivo, entram em um processo de decadência. O primeiro sinal é que param de emitir novos brotos e raízes. Em seguida, percebo um aumento significativo na incidência de pragas, principalmente cochonilhas.

Após algum tempo estacionadas, lutando contra as intempéries da varanda, e a despeito de replantes e tratamentos, acabam passando desta para melhor. Este processo é bastante comum em orquídeas mais sensíveis, tais como Sophronitis e Masdevallia. Mas já presenciei este fenômeno em Cattleya e Dendrobium, teoricamente mais resistentes.

Resumo da ópera: mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, todas acabam morrendo!

Trata-se de algo perfeitamente compreensível, dadas as minhas condições inóspitas de cultivo. Durante estas últimas tempestades de verão, presenciei vasos sendo derrubados e arrastados pelo vento, sem nada poder fazer. 

É algo que desanima bastante e que tem me desmotivado a fazer novas aquisições. No momento, sinto que tenho empurrado este hobby com a barriga. Peço desculpas pela falta de novidades, tenho refletido bastante a respeito destes problemas e tentado encontrar maneiras de contorná-los.




Orquídeas Terrestres


Orquídea Paphiopedilum híbrida
Paphiopedilum híbrido

As orquídeas terrestres, também conhecidas como orquídeas de chão, de jardim ou de terra, são mais uma prova da grande diversidade encontrada na família Orchidaceae. Como sabemos, as orquídeas podem ser agrupadas em diferentes categorias, de acordo com seu hábito vegetativo.

Aquelas chamadas de epífitas, que vivem sobre as árvores, são as mais numerosas representantes da família, sendo mundialmente apreciadas e colecionadas. No entanto, há também as orquídeas rupícolas, que costumam vegetar sobre as rochas. Suas raízes, na verdade, estão sendo nutridas pelo material orgânico que se deposita nas fendas entre as pedras. Lá também encontram a umidade necessária para sobreviverem. 

Da mesma forma, há uma subdivisão entre as orquídeas ditas terrestres, composta pelas orquídeas humícolas. Estas, apesar de parecerem terrestres, por viverem no solo, têm na verdade suas raízes apoiadas sobre o húmus, uma camada de folhas em decomposição e demais detritos que se acumulam no chão das florestas. Sendo assim, suas raízes não estão efetivamente enterradas.

Este é o caso das orquídeas dos gêneros Paphiopedilum (na foto de abertura deste artigo) e Phragmipedium (na foto abaixo). Aqui no Brasil, é comum encontrarmos a orquídea Paphiopedilum Leeanum, a famosa orquídea sapatinho, sendo cultivada em vasos de terra ou diretamente no solo, como uma planta de jardim. Ela é bastante resistente e se adapta perfeitamente. Apesar desta possibilidade, e devido à natureza humícola, a maioria dos orquidófilos costuma utilizar misturas de substratos para o cultivo de orquídeas destes dois gêneros. Na composição pode estar presente a terra, mas geralmente predominam cascas de árvores, areia, vermiculita, perlita, musgo sphagnum, dentre outros materiais. 


Orquídea Phragmipedium Sedenii
Phragmipedium Sedenii

Passando para uma orquídea de cultivo mais simples, temos a famosa orquídea bambu, Arundina graminifolia. Esta é uma planta que pode ser cultivada diretamente na terra, sem problema algum. É a típica orquídea de jardim, bastante utilizada no paisagismo. Aprecia sol pleno e solo rico em matéria orgânica. Quando mantida em apartamento, precisa estar em uma varanda bem iluminada. Ainda assim, tem a tendência a se inclinar na direção do sol, hábito que resulta em caules tortuosos. 

Quando bem desenvolvida, mesmo em vasos, a orquídea bambu propicia um espetáculo de floração, que atinge seu auge durante o verão, com graciosas flores imponentes no ápice de longos caules que lembram o bambu. Embora durem apenas dois ou três dias, as flores surgem de maneira sequencial, mantendo a haste florida por meses.


Orquídea Arundina graminifolia
Arundina graminifolia

Uma orquídea terrestre que costumamos encontrar com frequência nas floriculturas é o Cymbidium, geralmente híbrido. Este é um exemplo de orquídea bastante popular, mas que raramente nos remete ao mundo das plantas de chão. Plantado em vasos altos, envoltos por laços e celofane, o Cymbidium nem parece ser aquela orquídea resistente, que pode ser cultivada diretamente no chão do jardim, sob sol pleno. Sua única exigência é quanto ao clima, que não pode ser muito quente. Aqui em São Paulo, capital, ele ainda costuma florescer bem, durante o inverno.


Orquídea Cymbidium híbrida
Cymbidium híbrido

Para quem dispõe de bastante espaço, sol em abundância e clima mais quente, inclusive ao nível do mar, e procura uma orquídea terrestre, o Epidendrum fulgens e seus inúmeros híbridos são companheiros ideais. Esta é uma planta que pode ser encontrada na natureza vegetando como epífita ou terrestre, dependendo da região. No entanto, é mais conhecida no litoral como orquídea da praia. Suas raízes toleram o solo arenoso, a salinidade e a maresia. Existem híbridos belíssimos de Epidendrum, com as mais diferentes colorações. Ultimamente, têm surgido no mercado variedades compactas, ideais para quem vive em apartamento.


Orquídea Epidendrum fulgens
Epidendrum fulgens

Neste especial sobre as orquídeas terrestres, não poderia deixar de mencionar a famosa orquídea joia, Ludisia discolor. Esta é a planta que atrai a atenção de todos mesmo quando não está florida, graças ao aspecto rico e aveludado de suas folhas cobreadas, com veios avermelhados. Esta é uma orquídea que não necessita de muita luminosidade para florescer. Embora possa ser plantada diretamente na terra, preferencialmente rica em matéria orgânica, há quem utilize o substrato clássico para orquídeas, composto por casca de pinus, carvão vegetal e fibra de coco. Mistura deste substrato com terra também dá bons resultados. O importante é que o material seja bem drenado e não acumule umidade por muito tempo, já que os caules suculentos desta orquídea tendem a apodrecer com facilidade.


Orquídea Ludisia discolor
Ludisia discolor

Fechando o desfile das orquídeas terrestres que já passaram aqui pela sacada do apartamento, apresento a orquídea conhecida como flor do paraíso, Paradisanthus micranthus. Esta é uma orquídea não muito conhecida do público em geral, mas bastante interessante. Produz delicadas flores verdes ornamentadas com pequenos riscos acastanhados e um labelo branco. Parecem terem sido pintadas à mão.


Orquídea Paradisanthus micranthus
Paradisanthus micranthus

Infelizmente, aqui encerra-se a lista de orquídeas terrestres que já tive o prazer de cultivar. Tenho grande admiração por esta categoria de orquídeas, e tenho inclusive o desejo de colecioná-las. Certamente o faria, caso dispusesse de mais espaço. 

Apenas para mencionar mais algumas, temos a famosa orquídea grapete, Spathoglottis unguiculata, cujas flores exalam um perfume que lembra a uva ou o antigo refrigerante Grapette. Morro de curiosidade em relação a este aroma.

Outra orquídea terrestre bastante utilizada no paisagismo é o Phaius tankervilleae, popularmente conhecida como orquídea capuz de freira. Também dentre as comumente encontradas nos jardins brasileiros está a orquídea Sobralia macrantha. Temos uma bela touceira aqui na entrada do condomínio, ainda não tive a oportunidade de fotografá-la florida.

Uma planta que todos possuem por aqui é a Oeceoclades maculata, uma orquídea terrestre que não costuma ser mencionada nos círculos orquidófilos. Por fim, existe uma grande variedade de orquídeas europeias, como as dos gêneros OrchisOphrys, que se desenvolvem no solo e que, infelizmente, não se adaptam ao clima brasileiro.




Como cuidar de orquídeas


Orquídea Sophronitis Arizona
Sophronitis Arizona

25 dicas expressas para melhorar o 

cultivo de orquídeas em apartamento



1. O vento constante é inimigo das orquídeas. Desidrata a planta, retira a umidade do ambiente e atrapalha o crescimento das raízes e a fixação da planta no vaso.

2. Caso as orquídeas estejam em uma varanda aberta, em um andar alto, evite pendurar os vasos. Com o vento forte, eles poderão balançar, girar, chocar-se uns com os outros e, eventualmente, espatifar-se no chão.

3. Dê preferência a posicionar as orquídeas no chão ou próximo a ele. Quanto mais alto o local de cultivo na sacada, maior o estrago causado pelo vento.

4. Posicione plantas mais resistentes na frente das orquídeas, de modo a formar um anteparo contra o vento e o sol direto.

5. Banheiros e áreas de serviço, desde que bem iluminados, são bons locais para se cultivar orquídeas, devido à umidade que propiciam às plantas.

6. Dentro de casa ou apartamento, posicione as orquídeas o mais próximo possível da janela, em um nível mais elevado, junto ao parapeito. 

7. Algumas orquídeas vivem sob sol pleno, mas a maioria precisa de luminosidade indireta para se desenvolver adequadamente. A intensidade depende do gênero cultivado.

8. Procure girar a orquídea periodicamente, para que todos os lados recebam luz e cresçam de maneira uniforme. Este procedimento também evita que a planta se desenvolva horizontalmente.

9. Durante a formação da haste floral, mantenha a orquídea na mesma posição em relação à fonte de luminosidade, para evitar florações tortas e desalinhadas.

10. Quando for regar, evite molhar flores e botões florais. O excesso de umidade causa o aparecimento de pintinhas amarronzadas, causadas pelo fungo Botrytis cinerea.

11. Caso seja possível, mantenha molhado o chão do local de cultivo, principalmente em dias muito quentes.

12. Mantenha bandejas umidificadoras, com uma camada de pedrisco e uma lâmina de água no fundo, embaixo dos vasos de orquídeas, evitando que a água toque as raízes.

13. Regue somente quando o substrato estiver seco. Basta colocar o dedo e sentir a umidade. Alternativamente, com o tempo, adquire-se a prática de sentir o peso do vaso. Quando estiver leve, é hora de regar.

14. Periodicamente, leve todas as orquídeas para um banho debaixo da torneira, na pia, no tanque ou no box do banheiro. Caso possa fazê-lo com mangueira, no local de cultivo, melhor ainda.

15. A adubação química, dentro de casas e apartamentos, é mais recomendada por não exalar odores nem atrair insetos, problemas que costumam ocorrer com o uso de adubos orgânicos.

16. Procure adubar com metade da dose recomendada pelo fabricante, para evitar acúmulo de sais no substrato.

17. A planta precisa estar bem firme no vaso, com o auxílio de arames e tutores. As raízes de orquídeas bambas não se desenvolvem, param de crescer com o atrito intermitente.

18. Vento constante, baixos níveis de umidade relativa do ar, sol direto, mudanças bruscas de temperatura, estes são alguns dos fatores que podem fazer com que os botões florais amarelem e caiam, antes de desabrocharem.

19. Folhas amarelas nem sempre são sinal de doença. Muitas orquídeas as perdem naturalmente em um período do ciclo de vida.

20. Inspecione periodicamente as orquídeas com mais cuidado, manuseando o vaso, já que as pragas concentram-se em pontos que não costumamos visualizar.

21. Amontoar muitas orquídeas em um espaço pequeno pode favorecer o surgimento e a disseminação de doenças e insetos parasitas.

22. Ambientes fechados, com pouca ventilação, são propícios ao desenvolvimento de doenças fúngicas e bacterianas.

23. Procure dificultar o acesso dos animais de estimação ao local de cultivo, já que eles costumam mordiscar folhas e flores. Orquídeas, no entanto, não fazem mal aos bichos.

24. Orquídeas não são parasitas, carnívoras, nem venenosas!

25. Os principais artigos com dicas de cultivo já publicados no blog encontram-se a seguir: Como cuidar de orquídeas.