Entrevista com Márcia Morimoto


Márcia Sanae Morimoto
Márcia Sanae Morimoto

A personalidade orquidófila em destaque, na nossa seção de entrevistas, é a Márcia Morimoto. Com um sorriso e uma simpatia contagiantes, esta competente profissional divide-se entre as atividades em um grande orquidário comercial, o Colibri Orquídeas, que administra juntamente com a família, e os afazeres como membro da Associação Orquidófila de São Paulo, AOSP, que sua irmã, Lúcia Morimoto, preside há vários anos. Talentosa fotógrafa de orquídeas, seu trabalho já foi publicado em diversos livros e revistas.

Muitos anos antes de eu sonhar trabalhar com orquídeas, as irmãs Morimoto já conheciam meus tios, Hiroko e Takashi Matsumoto, empresários da Kiforma Plásticos, que fabrica multivasos termoformados, próprios para o cultivo de mudas de diferentes plantas, inclusive orquídeas. Eles foram os primeiros fornecedores deste material para o Colibri.

Apesar de ser bastante ocupada, Márcia gentilmente reservou uma parte do seu tempo para escrever um interessante e detalhado depoimento contando sua história com as orquídeas. À Márcia Morimoto, deixo meu muito obrigado pelo carinho e consideração!


'A minha trajetória com as orquídeas começou meramente por acaso, em 1997. Nesta época, estava morando no Japão já há 3 anos e meio, entre estágio e trabalho. Pensava em juntar algumas economias para, mais tarde, retornar ao Brasil e investir em alguma atividade. No final dos anos 1990, havia muitos brasileiros trabalhando no país, procurando novas perspectivas, que no Brasil estavam difíceis. 

Eu trabalhava em um hotel em Kyoto, das 7 às 16h30 e também tinha outro emprego (escondido do gerente do hotel), onde trabalhava das 18 às 22h. Como é bom ser jovem, aguentávamos tudo!

Nesta época, minha irmã Lúcia estava fazendo estágio na província de Kochi, que por sinal é terra natal do meu pai. Ela começou estudando o cultivo de cogumelos e nesta fase estava aprendendo a tirar o micélio de cogumelos com o sr. Akashi. 

Podemos dizer com toda certeza que o sr. Akashi foi o personagem principal que nos fez entrar para o mundo orquidófilo. A Lúcia não sabia, mas o sr. Akashi tinha como atividade principal a produção e venda de orquídeas e se ofereceu para ensinar a fase laboratorial dos cogumelos apenas porque éramos conhecidos dele. Quando terminou o aprendizado com os cogumelos, automaticamente, Lúcia começou a aprender a semear, replantar orquídeas in vitro, visto que o equipamento exigido é o mesmo (para cultivar ‘as sementes’ de cogumelo, o micélio).

E assim foi. Durante um feriado, em abril de 1997, eu e minha outra irmã Angela fomos visitá-la. Para mim era tudo novidade, nunca tinha visto um laboratório de produção de mudas, cultivo nas estufas, etc. Na hora de ir embora, a Lúcia perguntou se eu não tinha interesse em estudar orquídeas. Respondi: Até tenho... Mas nunca me imaginei fazendo isso. Ainda estava pensando em outras possibilidades, quando retornasse ao país.

Alguns meses depois, em junho, a Lúcia estava para retornar ao Brasil e me pediu para voltar junto e ajudar a trazer as malas para cá. Bem, eu fui perguntar ao meu encarregado se poderia voltar ao Brasil, mas no fim das contas, resolvi também pedir demissão. Foi aí que, ao invés de ajudar a Lúcia com as malas, ela que quase teve que me ajudar a trazer a minha ‘mudança’, pois estava lá há mais tempo que ela!

Não sei se vocês sabem, mas a nossa atividade aqui no sítio, em São Lourenço da Serra, era produção de frangos de corte. Durante o tempo que passamos no Japão, a granja ficou desativada. Quando retornamos, não tínhamos muitos recursos para investir. Transformamos a granja em uma estufa improvisada, tirando o telhado e colocando cobertura plástica e tela de sombreamento. Já dava para o gasto! Para começar, estava muito bom! 

Fiquei uns 20 dias por aqui e logo segui para fazer o estágio no laboratório do sr. Akashi, no Japão. A Lúcia ficou e comprou os equipamentos necessários para começar a tocar as coisas por aqui. Após 6 meses, importamos do sr. Akashi alguns frascos matrizes de plantas meristemadas, que a Lúcia começou a reproduzir no Brasil. O começo foi muito difícil, como toda atividade, mas em vista do clima no Brasil, o cultivo era bem mais simples do que no Japão, pois não tínhamos os extremos de frio e calor que tem Kochi. As plantas cresciam muito mais rápido e floresciam idem. A Lúcia começou a fornecer mudas para produtores da região de Arujá, Itaquaquecetuba e as coisas começaram a melhorar. 

Sr. Akashi chegou a ter um laboratório no Nepal e visitava muito o país, em uma época em que era permitida a entrada de plantas no Japão, sem os rigores das leis atuais. Assim, tinha uma coleção respeitável de muitas espécies asiáticas. Acho que foi por isso que tenho predileção por espécies até hoje! 

Retornei ao Brasil em dezembro de 1998, ano de fundação do Colibri Orquídeas. Comecei a tocar o pequeno laboratório e a fazer cruzamentos entre as minhas matrizes.

Em fevereiro de 1999, filiei-me à AOSP e desde então faço parte de todas as atividades por ela organizadas. Comecei como fotógrafa e continuo até hoje, talvez por ter estudado um pouco de fotografia no curso de Programação Visual, que cursei na FAAP.

Seguem algumas publicações da AOSP das quais participei e participo como colaboradora:

Em 2002, juntamente com Denitiro Watanabe, Lúcia Morimoto e Gilson Kihara, lançamos o livro Manual de Cultivo vol. 1, que foi e continua sendo sucesso até hoje.

Mais tarde, em 2007, em comemoração aos 40 anos da AOSP, com Denitiro Watanabe, lançamos o Manual de Cultivo vol. 2.

A partir de setembro de 2011, publicamos a Revista da AOSP, juntamente com o editor Marcos Antônio Campacci e a equipe da AOSP. Este era um sonho antigo do nosso querido associado Jorge Kawasaki, uma revista trimestral com assuntos de interesse dos orquidófilos em geral. Mês que vem sai a revista nº 17!

Atualmente, como orquidófila, me preocupo em reproduzir, em laboratório, algumas espécies que notadamente têm risco, pela retirada de seu habitat pelos mateiros ou pelo risco com a destruição do mesmo. Além disso, procuro o melhoramento genético de espécies, através de cruzamentos, visando plantas vigorosas, floríferas, de forma superior e de fácil cultivo.'

Empresa familiar

'Trabalhamos todos juntos aqui. Minha mãe, 78, cuida da coleção, replanta, rega, etc. Meu pai coloca tutor nos Oncidium que mandamos para o atacado, além de regar, etc. Em abril, ele fará 81 anos e continua trabalhando firme nas estufas.

Meu cunhado Ricardo, vulgo Tibúrcio, faz tudo: rega, aduba, controla pragas, cuida das mudas pequenas. Minha irmã Cristina (esposa do Ricardo) cuida das plantas do site e uma parte da coleção. Minha irmã Angela cuida das plantas floridas.

A Lúcia cuida das mudas nas bandejas, que saem do laboratório, e faz as vendas para clientes no atacado. Apesar de ela morar em Itapecerica da Serra, todo dia vem bater cartão.

Eu faço vendas no atacado, cruzamentos diversos, cuido das meninas no laboratório (são 3 funcionarias lá dentro) e cuido de uma parte da coleção.

Temos outro sítio, o Colibri 2. Meu irmão Nelson e a esposa Vanessa moram lá e cuidam da engorda das plantas ‘comerciais’ que produzimos, por ter espaço para estufa maior. Lá tem os Oncidium Aloha, obryzatum, Sharry Baby e outros em grande escala. Deve ter uns 6.000 m² de estufa lá.

Aqui onde moro deve ter quase outros 6.000 m², mas o terreno é bem acidentado, por isso são 9 estufas menores. 

Trabalhamos em família, juntamente com os funcionários, e graças a Deus nos damos muito bem!'

14 comentários:

  1. Que história linda! Como num filme, dá para imaginar cada quadro. Deve ser uma experiência maravilhosa, cujo trabalho árduo é recompensado pela beleza... Parabéns a todo pessoal do Colibri e obrigada a ti, Sergio, por mais esta bela história!

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    1. Oi, Alexia! Então, é uma odisseia, rica em detalhes. Também gostei bastante, o mérito é todo da Márcia e da família. Fico feliz por saber que gostou, sua opinião é sempre muito importante para mim! Muito obrigado!

      Um grande abraço!

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  2. Olha só que interessante; bom saber que ela é do "Colibri orquídeas", quase sempre uso este site para referenciar sobre alguma orquídea, ou mesmo ter um padrão de valor de alguma orquídea!
    Parabéns por mostrar mais uma etapa de grande importância! abraço!

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    1. Tudo bem, Jalo? De fato, o site deles é ótimo! Também consulto com frequência. Que bom receber sua visita e ler seu comentário, muito obrigado pelo apoio, sempre!

      Um grande abraço!

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  3. Flávia Bispo dos Santos2 de março de 2016 21:56

    Experiência inspiradora!!! Obrigada por dividi-la conosco!

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    1. Oi, Flávia, que bom saber que gostou! Imagine, eu que agradeço pela sua participação!

      Um grande abraço!

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  4. Uma historia linda,quando leio algo assim vejo que sou uma firmiguinha e que tenho muito a aprender ainda.Amo demais as orquídeas,tenho poucas(18) mas sou ciumenta com cada uma delas,cada flor é uma celebração.
    Outro dia passando em frente a casa de uma amiga vi um vaso grande na calçada,falei pra minha é uma orquídea,e era mesmo,levei pra casa.
    Essa amiga e doida...falei pra ela da próxima vez me da viu,não joga fora não.
    Que Senhor continue abençoando sua família no que fazem Márcia Morimoto.💋

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    1. Oi, Maria Angpelica! De fato, é uma pena que as pessoas ainda joguem orquídeas e outras plantas fora. Que linda sua mensagem, muito obrigado pela participação!

      Um grande abraço!

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  5. Olá Sérgio!
    Estou iniciando e tentando cuidar de algumas orquídeas. Leio sempre suas matérias. Onde consigo esses livros de Manual de Cultivo? Obrigada por dividir sua experiência com os iniciantes. Abraços.

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    1. Oi, Aurinete, tudo bem? Que bom saber, muito obrigado pelo apoio! Estes livros você encontra no site da AOSP:

      http://www.aosp.com.br/vendas-on-line.html

      Eles também podem ser adquiridos nas exposições que a associação realiza. A próxima será nos dias 18 a 10 de março, no bairro da Liberdade, em São Paulo.

      Um grande abraço!

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  6. Que bela história. Gostei muito de ler. Vou visitar o site do orquidário agora. Obrigada Sérgio!!

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    1. Que bom que gostou, Suzana! De fato, é uma trajetória linda, com muita dedicação. Super obrigado pela visita!

      Um grande abraço!

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